Por Padre Antônio Vieira (1669)
Tome agora Raquel, e perguntemos àquela mãe e a estes dois filhos, se pediriam depois de tão pesadas e contrárias experiências, o que antes delas pediram. Pediria Raquel filhos, se soubesse que o ter filhos lhe havia de custar a vida? Pediria Sansão a filistéia, se soubesse que lhe havia de ser a cousa de sua afronta, de sua morte, e de perder os olhos com que a vira? Pediria o Pródigo a herança antecipada, se soubera que com ela havia de comprar a miséria, a servidão, a desonra? Claro está que não. Pois se agora não haviam de pedir nada do que pediram, senão antes o contrário, por que o pediram então? Já sabeis a resposta. Pediram-no porque não sabiam o que pediam; pediram-no porque ninguém sabe o que pede, e pediram-no porque foram aquela mãe e aqueles dois filhos, como a mãe e os dois filhos de nosso Evangelho: Nescitis quid petatis. Suposto este princípio certo e infalível, que ninguém sabe o que pede, tirem agora a conseqüência os que se têm por maldespachados. Se vós soubésseis que vos estava bem o que pedistes, então tínheis razão de estar contentes se vo-lo concederam, ou descontentes se, vo-lo negaram. Mas quando ignorais igualmente se vos estava bem ou mal o que pretendíeis, por que vos desconsolais? Se me desconsolo porque cuido que me podia estar bem, por que me não consolo considerando que me podia estar mal, e mais quando nas coisas deste mundo o mal é o mais certo? Consolai-vos com a desgraça de Raquel, consolai-vos com a tragédia de Sansão, consolai-vos com o arrependimento do Pródigo. E se estes exemplos vos movem menos por serem de longe, consolai-vos com os de mais perto, e com os que vistes e vedes com vossos olhos. Quantos vistes que cuidavam que estava o seu remédio onde acharam a sua perdição? Quantos vistes que cuidavam que estava a sua honra donde tiraram o seu descrédito? Quantos vistes que cuidavam que estava o seu aumento onde experimentaram a sua ruína? Quantos finalmente vistes que os esperava a morte onde eles esperavam os maiores interesses e felicidades desta vida? Alcançaram o que pediram, aceitaram muito contentes o parabém do despacho, mas o despacho não era para bem. Poenam pro munere poscis, disse o sol a Faetonte, quando lhe pediu o governo do seu carro12. Olha filho que cuidas que pedes mercê, e pedes castigo. O autor é fabuloso, mas a sentença verdadeira. E se não, perguntai aos nossos Faetontes, aos do oriente na Ásia, aos do meio-dia na África, aos do ocidente na América. O mesmo carro que pediram foi o seu precipício, e o mesmo excesso dos raios, o seu incêndio. Se lhes buscardes os ossos fulminados, como se buscaram os de Faetonte, uns achareis nas ondas, outros nas areias, outros nos hospitais, outros nos cárceres e nos desterros, e poucos nas mesmas terras que perderam, que fora mais honrada sepultura. Estes são os vossos bem-despachados. Quando partiram, levavam após si as invejas; quando tornaram, ou não tornaram, trouxeram as lágrimas. E se eles se enganaram com o seu desejo e com a sua fortuna, porque não souberam o que pediram, vós que também o não sabeis, por que vos haveis de enganar? Desenganaivos com o seu engano e consolai-vos com o seu erro, pois nem eles nem vós sabeis o que pedis: Nescitis quid petatis.
V
Na ciência de Deus e na nossa ignorância devemos estribar a indiferença de nossas petições. Como conciliar com essas verdades o: Pedi e recebereis? Exemplos dados por Cristo no Evangelho. Por pecados, acedeu Deus ao pedido dos hebreus no deserto; por merecimentos, negou Cristo as petições dos Zebedeus.
Oh! se soubéssemos o que pedimos! Oh! se soubéssemos o que nos está bem ou mal! Como nos havíamos de dar muitas vezes por bem-despachados com aquele mesmo que chamamos mau despacho! O que nos está bem ou mal, só Deus o sabe; todos o mais o ignoramos. E esta ciência de Deus, e esta ignorância nossa, são os dois pólos em que há de estribar toda a indiferença de nossas petições, e também a resignação nos despachos. As petições, havemo-las de fazer como quem não sabe o que pede, e os despachos havemo-los de aceitar como de quem só sabe o que dá. Cuidamos que os homens são os que nos despacham, e por isso murmuramos e nos queixamos deles, e não advertimos que em todos os conselhos assiste invisivelmente Deus como presidente supremo, e que ele é o que nos dá ou nega o que pedimos, como quem só sabe o que nos está bem ou mal. As sortes, diz Salomão, não dependem da mão do homem, que as tira senão da mão de Deus, que as governa: Sortes mittuntur in sinum, et a Domino temperatur13. Se vos saiu a sorte em branco, se vos não responderam como pedíeis, consolai-vos e aceitai este despacho como da mão de Deus, que só sabe o que vos convém. Os homens só fazem mercê quando dão; Deus não só faz mercê quando dá, senão também quando nega.
Petite, et
dabitur vobis: Pedi e recebereis, diz Cristo (Lc. 11,9). E para maior
confirmação desta promessa, acrescenta: Omnis qui petit accipit: Porque todo o
que pede recebe. A proposição não pode ser mais universal nem mais clara, mas
tem a réplica e a instância muito à flor da terra, e apenas haverá neste mesmo
auditório quem não possa testemunhar nela com a própria experiência. Quantos
senhores de ricas e grandes casas pediram a Deus um herdeiro, e não o
alcançaram? Quantos pobres carregados de filhos pediram para eles o sustento, e
não têm com que lhes matar a fome? Quantos na enfermidade fizeram votos pela
saúde, e morreram sem remédio?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.