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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Assim, pois, crescia o jovem Alípio Abranhos, quando – do que depende o destino dos homens e muitas vezes a sorte das nações! – sua tia Amália veio a Penafiel consultar um dentista americano, então famoso em todo o Norte.

Esta senhora providencial (em que reaparecia a singular beleza do Apolo de Amarante) casara em nova com um proprietário rico de Amarante, e viúva, sem filhos, vivia em isolamento na sua Quinta dos Miguéis.

Naturalmente, em Penafiel, a tia Amália viu frequentemente seu sobrinho Alípio, e bem depressa a graça, a vivacidade, a esperteza do pequeno cativaram a tia, que, secretamente infeliz por não ter filhos, se vira até então obrigada a empregar o seu fundo de afeição maternal nas aves domésticas e nos diversos animais da sua quinta. Alípio era como um filho inesperado que lhe aparecia «a meio do caminho da sua vida» (Dante).

Não é hoje segredo para ninguém que o Conde d'Abranhos preparava um volume de Memórias Intimas, quando o acometeu a doença. E dessas notas interrompidas, truncadas, que eu transcrevo o seguinte parágrafo, relativo a este período decisivo da sua carreira:

«Minha tia Amália concebera o plano – abençoado plano! – de me levar para a Quinta dos Miguéis, e mandar-me dar uma educação que me habilitasse a tomar na sociedade a posição elevada que naturalmente me pertencia pela minha bisavó paterna: numa palavra, fazer de mim um Noronha, digno dos Noronhas.

Abriu-se a este respeito com meu pai, que acedeu prontamente, deslumbrado pela perspectiva de me ver possuidor de uma educação que os seus meios de fortuna não lhe permitiriam darme. A sua vontade, porém, encontrou formidáveis escolhos nas lágrimas de minha mãe. Separar-se do filho que ela criara ao seu peito, parecia-lhe tão doloroso como uma amputação. Lembra-me vagamente de a ver abraçada a mim, dizendo, banhada em rios de lágrimas: Ó Lipinho, que te querem levar! Ai, Lipinho, que querem fazer de ti um doutor!

Mas meu pai, com o seu bom-senso, minha tia, com as suas promessas, venceram essa resistência, igual à da leoa a que impudente caçador quer arrebatar os filhos, e numa manhã de Agosto – como recordo o opulento Sol nascente, cravando o mundo das suas flechas de ouro! – parti com minha tia Amália para a pitoresca Quinta dos Miguéis, onde me decorreram a infância e a puberdade, primeiro nos infantis brinquedos, mais tarde em úteis estudos. E nunca revisitei a Quinta dos Miguéis, sem uma profunda saudade desses anos descuidosos, e sem ir ao pequeno cemitério, – onde minha tia Amália repousa no seu bem tratado jazigo, cercada de floridos goivos – ajoelhar e murmurar uma reconhecida prece, no silêncio da tarde, pela alma simples que me abriu a sua bolsa e me habilitou a cursar as aulas da nossa sábia Universidade.»

Página admirável! – em que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante bondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, já ilustre, já titular, já ministro, seguir o caminho estreito do cemitério, por alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho sobre a relva, descobrir-se, e rezar! Página admirável, repito, repassada de uma saudade grave, num colorido tão delicado de paisagem!

Na Quinta dos Miguéis se passou a mocidade do Conde d'Abranhos. Ali estudou a gramática e o latim, sob a direcção do abade de Serzedelo, velho de raras virtudes cristãs. Ali passou as suas férias de formatura.

Eu tive a honra de o acompanhar, quando o Conde foi tratar da sua eleição a Amarante, numa visita à Quinta dos Miguéis. Do portão, uma rua plantada de loureiros conduz à casa de habitação, baixa, sólida, coberta de um dos lados por uma formosa trepadeira, atulhada de rosinhas brancas. Um lanço de escadas de pedra, ornado de velhos vasos azuis, leva ao salão, grande, pintado de oca, com cortinas vermelhas e brancas, e nas paredes litografias das batalhas de Napoleão. Tudo é simples, patriarcal e grave. O Conde mostrou-me o seu quarto e o rebordo da janela onde, em pequeno, pendurava gaiolas de grilos, com a sua folhinha verde de alface. Dali descobre-se a estrada, no traçado do antigo caminho, onde o Conde (segundo ele próprio me contou) via com inveja passar as liteiras que levavam a Braga e ao Porto os fidalgos das vizinhanças. Já então, um sentimento vago – pressentimento do seu alto destino ou simples aspiração de um espírito distinto para os centros letrados e inteligentes – o levava constantemente a desejar a existência das grandes cidades.

Ao fundo da quinta foge um pequeno regato, muito claro, muito pausado, cujo rumor tem a tristeza das águas mansas que correm entre ervas altas; as margens são cobertas de salgueiros; na Primavera os rouxinóis enchem de ninhos aquele lugar assombrado e terno.

Como a noite que passei na quinta era muito calma, fomos depois de jantar, passear junto ao Ribeiral, que é o nome daquele canto de paisagem elegíaca, e nunca esquecerei a bela confidência com que ali me honrou o Conde.

(continua...)

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