Por Eça de Queirós (1870)
— O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente neste mundo três amigos meu; amigos ín timos, companheiros de infância, camaradas deestudo, tendo vi vido sempre juntos, estando cada um constantemente pronto a prestar aos outros os derradeiros sacrifícios que pode impor a ami zade. Entre os nossos companheirosnão havia um médico. Era mister obtê-lo e era ao mesmo tempo indispensável que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora, O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou amanhã pela manhã; não devendo saber ninguém quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indício vir a suspeitar um dia quem ela seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem fala, e qual é a casa em que vai entrar. Eis o motivo por que nós temosno rosto uma máscara; eis o motivo por que os senhores nos hão-de permi tir que continuemos a ter cerrada esta carruagem e que lhes ven demos os olhos, antes de os apearmos defronte do prédio a que vão subir. Agora compreende — continuou ele dirigindo-se a F... — a razão por que nos acompanha. Era-nos impossível evitar que o se nhor viesse hoje de Sintra com o seu amigo, era-nos impossível adiar esta visita, e era-nos impossíveltambém deixá-lo no ponto da estrada em que tomámos o doutor, O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.
— A lembrança — notei eu — é engenhosa mas não é lisonjei ra para a minha discrição.- A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence.
F... achava-se inteiramente de acordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando 0espírito da aventura romanesca dos mascarados. As palavras de F..., acentuadas com sinceridade e com afecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido fi gurou-se-me que esperava discutir mais tempopara conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surpreendia desagradavelmente esse corte imprevisto. Ele, que tinha a réplica pronta e a palavra fácil, não achou que retorquir àconfiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silêncio que devia pesar à suas tendências expansivas e discursa doras.
É verdade que pouco depois deste diá0 trem deixou a es trada de macadame em que atéaí rodara e entrou num caminho vicinal ou num atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrépito dos estores embatendo nos caixilhos mal permitiram conversar.Tornámos por fim a entrar numa estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:- Lá vou!
Voltou pouco depois, e eu ouvi alguém que dizia: — Vão com raparigas para Lisboa.O trem prosseguiu.
Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível paraque os guardas nos não abrissem a porti nhola? Entender-se-ia com os meus companheiros a frase que eu ouvira?
Não posso dizê-lo com certeza.A carruagem entrou logo depois num pavimento lajeado e daí a dois ou três minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:- Chegámos.
O mascarado, que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma comoção:- Tenham paciência! Perdoem-mo... Assim é preciso!
F... aproximou o rosto, e ele vendeu-lhe os olhos. Eu fui igual mente vendado pelo queestava em frente de mim. Apeámo-nos em seguida e entrámos num corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito se gundo pude deduzir do modo por que nosencontrámos e demos passagem a alguém que saía.
— Levo o trem?- A voz do que nos guiara respondeu: — Leva. Demorámo-nos um momento. A porta por onde havíamos entrado foi fechada à chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo: — Vamos! Demos alguns passes, subimos dois degraus de pedra, tomámos à direita e entrámos naescada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e ar redondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda,que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar húmido, impregnado de exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dezdegraus, tomámos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e parámos num primeiro andar.
Ninguém Unha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre nestesilêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma opressão, uma espécie desobressalto pueril. Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado.- Podem tirar os lenços — disse-nos um dos nossos compa nheiros.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.