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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

Vozes, ao ritmo de instrumentos litúrgicos, entoaram um cântico glorioso. O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.

Cerúleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas lampejaram em meneio heróico e toda a turba templária formou no átrio, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir argentino de armilas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois cornos de luz purpúrea ardendo-lhe entre os cabelos crespos, surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria estática.

A voz com que a chamou reproduziu-se em eco no silêncio místico; o seu olhar ardia e, em torno do seu corpo torreado, relumbrava um halo como se o emuldurassem chamas.

- Vem! O meu amor esperava-te ansioso. És a eleita de minh’alma. Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos são açucenais extensos. Eu pus em ordem a natureza para as nossa núpcias. Vem!

A terra em que pisas nunca recolheu cadáveres. Entraste no reino da ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como caudas d’astros.

Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava e os cataphractos(1), levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanças formando uma abobada de cintilações.

José olhava, mudo e receoso, acolhendo ao peito a tímida donzela. Um galo cantou em alguma herdade próxima.

Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os seres que a animavam subverteram-se. Os ares ficaram nublados de fumo, estriges chirriaram. De novo reapareceram os campos rasos, ermos, estéreis, calados, ao luar lívido. Maria, com o coração sobressaltado, murmurou: - Que lindo sonho, meu senhor.

- Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarca. Vamos! Os lírios trescalam, os grilos cantam. É a madrugada que vem. Puseram-se a caminho.

E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, monstruosa, com dois cornos que coruscavam.

O MILAGRE DAS LÁGRIMAS

A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com aceitosas sombras de sicômoros e de amendoeiras, era toda orlada de anêmonas vermelhas e de margaridas brancas e amarelas.

Os khans sucediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tiro ou do Líbano ou subiam de Jopé, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engadi, enquanto os dromedários soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostálgicos à vívida fulguração do sol.

Casas misérrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivais.

Caravanas desfilavam – os homens à cavalo, com as lanças altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.

Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths(1) vibravam, frutas desferiam e os cavalos alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam túmulos.

José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, metendo por atalhos para evitar a chacota da gente nômade.

Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.

Pós ela uma pequenita, já com abundância de flores, ainda varejava os matos procurando anêmonas.

Vendo-as, a mísera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos d’água, perguntou:

“Se ainda distava muito Edor, onde vivia Burac, o nazir, que conhecia a virtude das ervas e realizava curas maravilhosas. Vendera as ovelhas e levava oito ciclos de prata e um colar de ouro comprado em Jerusalém e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saúde do

filho.”

José estendeu o braço na direção do levante: - Era além, muito longe, através da montanha, num vale sombrio, a horas do Jordão. Maria, comovida, quis ver o infante. A mãe descobriu-lhe o rosto. Era lindo!

Os cabelos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cúpulas tumbais das pálpebras, com os longos cílios repontando como a erva que fica no abandono.



(continua...)

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