Por Adolfo Caminha (1896)
D. Sinhá confirmou: — "A mamãe era dama do Paço..." Entraram ganhadores com a bagagem, que foi recolhida ao novo aposento de Evaristo. Raul tomou conta da gaiola dos pássaros, onde refulgiam asas de corrupião e de xexéu. Evaristo disse logo que o corrupião era do Furtado: podia garantir a espécie; o xexéu, ele trazia para o diretor do Banco.
E nesse andar escoou o domingo, com grande tristeza para o Raul, que no dia seguinte voltava ao colégio, pensando no corrupião.
Os hóspedes recolheram fatigados da viagem, morrinhentos de calor e de cansaço.
Adelaide, principalmente, queixava-se de uma dor na cabeça e de "confusão nas idéias".
Evaristo, para a consolar, disse que também estava com a cabeça a arder. Trataram de se agasalhar na cama fresca e cheirosa a sabão. Da janela do quarto via-se luz no segundo andar, e não poucas vezes ecoava embaixo, no fundo escuro da área, o som de uma cusparada.
— Então, Adelaide, que achas do povinho?
—Que povinho?
— Da Branca e do Furtado... Assim... Não se pode adiantar juízo.
— E a tal D. Sinhá? Oh, mulher feia!
— Credo! — murmurou Adelaide. — Feia e pedante.
— É verdade: feia e pedante.
— Fala baixo...
— Viste, ao jantar, quando ela abria a boca?
— A mãe é dama do Paço.
— Que estás dizendo!
— É. Dão-se com a família imperial.
Adelaide respondia com os olhos fechados, morta de sono, às perguntas do marido. Ele é que não tinha sono, encantado com a sua nova posição, ruminando programas de vida, conjeturando sobre o futuro, sobre o dia de amanhã.
E corria os olhos nos móveis do quarto, no lavatório de ferro, no saco de roupa, no cabide, nos menores objetos, como quem duvida de uma situação nova.
— Era, então, verdade que estava no "grande" Rio de Janeiro!
O que é a gente se decidir! o que é ter-se coragem!
Meio acordado, meio dormindo, viu a casinha de Coqueiros, na província, entre árvores, a Balbina, caída aos pés de Adelaide, à hora do embarque..., o Maranhão, onde ia um rapazinho, estudante, que tocava flauta, e o Furtado acenando para bordo...
CAPÍTULO II
D. BRANCA era mulher que, ao simpatizar com uma pessoa, não admitia restrições, e Adelaide, fosse pelos seus bonitos olhos, fosse pelos modos — que ninguém os tinha mais acentuadamente provincianos — caiu-lhe nas graças, merecendo um lugarzinho no coração dela.
A esposa de Evaristo ficou sendo, em pouco, uma das melhores amigas da esposa de Furtado, com extraordinária satisfação para este, que não ocultava a simpatia que lhe inspirava Adelaide.
Naquela casa de Botafogo viviam todos como se constituíssem uma só família, como se Evaristo fosse irmão de Furtado e D. Branca irmã de Adelaide, intimamente unidos, querendo um o que o outro desejava, não se contrariando em coisa alguma. De manhã iam os dois homens para o Banco, à mesma hora, depois do almoço, e ficavam as duas na bela e encantadora harmonia de irmãs que se prezam, lendo, costurando, trocando confidências na sala de jantar, enquanto não chegavam os maridos — o Raul no colégio e a pequena com a ama.
Evaristo, por seu lado, ia conhecendo o Rio de Janeiro, inclusive a famosa Rua do Ouvidor, que ele pitorescamente alcunhava de "beco da perdição". Não gostava da Rua do Ouvidor; aquele zunzum de abelhas que desciam e subiam num movimento contínuo, aquela vozeria estéril dos cafés e das portas de loja, punhamno de mau humor, enchiam-lhe os ouvidos, irritavam-no, desequilibravam-lhe o sistema nervoso, ao mesmo tempo que faziam-lhe confusão no cérebro habituado à vida calma e refletida de homem honesto. — "Evidentemente nascera provinciano e havia de morrer provinciano" — dizia.
— Mas é um engano — opunha Furtado — é mesmo uma grande tolice! O homem, para ser homem às direitas, carece de lutar, de sofrer as pequeninas misérias sociais... A natureza humana quer movimento, quer emoções... quer vida, enfim. Todos nós somos uns aventureiros que andamos à cata de filões de ouro...
Evaristo argumentava, porém, que não dizia o contrário, que tudo aquilo era uma grande verdade, mas que ninguém podia ir de encontro à natureza. Era o primeiro a reconhecer os benefícios e as incalculáveis belezas da civilização; mas também não havia negar que a título de civilização, emitia-se muita moeda falsa, muito princípio errado - muita bandalheira!
E ficavam-se a olhar um para o outro.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.