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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

E eu fui bom? Fui pusilânime e réprobo. Tempos depois, dentro de minha cela, recebi uma carta. Aquela que me fizera cair e que eu arrastara em minha queda, tinha sido mãe e pedia-me que olhasse por ela e pelo filho. A velha tinha falecido, deixando a filha só no mundo, com o testemunho vivo do meu crime. Nos primeiros tempos olhei de longe pela infeliz e pelo fruto do nosso amor fatal; mas sabendo depois que ela se havia desmandado em sua vida, faltou-me generosidade para continuar-lhe os meus auxílios. Todavia, eu não perdia de vista esses entes com os quais o destino me prendera por inquebrantáveis cadeias. Quando ela se mudava de uma terra para outra, como muitas vezes aconteceu, eu achava sempre no novo lugar pessoa de minha confiança a quem recomendar a criança que, rendendo a homenagem devida à decência, eu dizia ser ligada comigo por parentesco remoto. Essa pessoa era o vigário ou outro qualquer sacerdote. Um dia recebo uma carta em que o vigário da freguesia, onde a mulher e o menino estavam ultimamente residindo, me informava da morte da mãe e do abandono do filho. A carta fora retardada, de sorte que quando me chegou às mãos, mais de um ano tinha decorrido depois de sua data. Sendo-me então mais fácil tomar o menino à minha conta, não só pelo falecimento daquela que a ele tinha melhor direito do que eu, mas pela minha secularização, corro ao ponto em que o devia encontrar, impaciente por ver e conhecer aquele que na forma de espinho eu trazia incessantemente na consciência. Oh que amargas desilusões não foram as minhas, quando aí cheguei! O menino tinha no lugar as mais tristes tradições que se podem imaginar, e, para cúmulo do meu desgosto, mão desconhecida o tirará violentamente, posto que com satisfação de todos os moradores.

- Meu Deus! Que está dizendo, seu padre? inquiriu Marcelina, abalada e confusa destas noticias, que caiam em seu espirito na forma de raios de luz.

- Tu sabes o resto, Marcelina.

- Eu, eu?

- Sim. Não te lembras do que fiz quando, de volta do engenho, entrei em tua casa?

- Já me não lembro, seu padre.

- Pois lembro-me eu. chamei Lourenço para junto de mim, meti-o entre as minhas pernas e abracei-o . Ah! era a primeira vez que eu via meu filho. Seu filho! Pois Lourenço é seu filho, seu padre! exclamou a cabocla, fazendo gestos e meneios, que acusavam intenso e súbito prazer. Oh! meu Deus, como eu sou feliz!

As lagrimas saltavam dos olhos dela, mas não eram desacompanhadas; o padre também chorava.

- Feliz foi Lourenço, feliz fui eu, disse ele. se não foras tu, alma privilegiada, mãe perfeita, honra das mulheres, brilho do lar, se não foras tu, o que seria desse menino que vivia como animal imundo na povoação condenada? Mas... estou ouvindo o rumor de passos. É talvez Lourenço que se aproxima. Mudemos de assunto. Não te esqueças, Marcelina, do que me prometeste. Não reveles a ninguém a minha fealdade moral. Ninguém saberá o que vosmecê acaba de contar, menos Francisco. Francisco? Tens razão. A Francisco, primeiro instrumento da Providencia para a mudança radical do destino de Lourenço, podes e deves referir toda esta historia. Agora uma ultima palavra. Retiro-me deste lugar sem saber para onde vou. Se eu vier a morrer antes de terminada esta guerra, que me aparta de vocês contra a minha vontade, logo que tiveres noticia, faze Lourenço senhor do seu próprio segredo e entrega-lhe este papel, que ele deve apresentar às justiças. Não é meu testamento, é a doação que lhe faço, de meu sitio e de todas as terras que me pertencem.

- O padre Antonio entregou a Marcelina o papel a que se referira. Era tempo. Lourenço entrava para dizer que seus serviços já não eram necessários no sitio.

- - Por derradeiro, quero dar-te um conselho, Marcelina, disse o padre levantando-se. Ao que parece, está projetado um ataque ao engenho. Devem passar por aqui os assaltantes, e natural é que tentem algum desacato a vocês, por se vingarem das relações que Francisco mantém com o sargento-mór. Por isso prudente me parece que não pernoitem aqui por estes tempos. No engenho, onde há mais força, deve haver mais segurança. Seu padre tem razão, respondeu Marcelina.

- Mas no engenho é que eles têm sede, observou Lourenço.

- Pois façam o que lhes parece melhor, tornou o sacerdote.

- O melhor é irmos para a casa grande enquanto é cedo, disse a cabocla.

- Verdade seja – acrescentou o rapaz – que eu devo estar junto de Germano, para ver esse negro o que faz. Vosmecê bem sabe porque é que eu digo isto, minha mãe.

- Está acertado. Vamos já.

- Adeus, Marcelina. Deus te abençoe, Lourenço, disse o padre Antonio, limpando a furto duas lagrimas que lhe apontaram nos olhos, e encaminhando-se para a estrada.

- Daí voltou-se para dizer: - Escuta de lá, Lourenço. A chave da casa, na ocasião de sair, mando por debaixo da porta. Quando voltares do engenho, achá-la-has da banda de dentro. Senhor sim.

(continua...)

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