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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Não tenha susto. Tudo se há de fazer em boa e santa paz, eu o espero. Demais o capitãomór não é homem com quem se arrisquem tais surpresas, pois anda sempre com boa escolta. 

— No quer acho que obra como varão prudente, tornou Ourém, aproveitando o ensêjo para 

uma citação de Camões, que era seu poeta favorito: 

 

«Eu nunca louvarei 

O capitão que diz, eu não cuidei.» 

 

Tinham os dois chegado à beira de uma coroa de mato, onde já os esperavam Daniel Ferro e João Correia, parados ao pé de uma marizeira colossal. 

Era alí o ponto designado para o encontro com o capitão-mór. 

Ao cabo de breve espera, ouviram o tropel dos animais; e os cavaleiros correram pressurosos a saudar as senhoras que já apareciam por entre o arvoredo do tabuleiro. 

Depois de trocadas as mais corteses saudações, seguiram juntas as duas cavalgadas. 

— Temos uma excelente manhã para a nossa montearia, sr. capitão-mór, disse Marcos 

Fragoso. 

— Excelente, em verdade, respondeu Campelo circulando com o olhar os horizontes, como quem ainda não se apercebera do tempo que fazia. 

Arnaldo, a-pesar-de preparado para o encontro, não pôde conter o movimento de repulsão que arrancou-lhe a chegada de Marcos Fragoso. Como, porém, estava afastado, ninguém reparou no seu gesto, nem percebeu o olhar com que êle marcava o destruidor de sua felicidade. 

Desde então, o sertanejo que já se mostrava esquivo, afastou-se ainda mais e, a pretêsto de não estorvar o caminho aos outros, desviou-se para o lado e seguiu por dentro do mato. 

Um só instante, porém, não tirava os olhos de Marcos fragoso. Atento ao seu menor gesto, cogitava entretanto consigo no que podia ocorrer nesse passeio, cujas consequências êle ia conjeturando. 

Como bem se presume, o sertanejo desde a noite em que ouvira a conversa do Fragoso e seus amigos na varanda da casa do Bargado, não perdeu mais de vista o homem a quem êle considerava seu maior inimigo. 

Nessa observação o auxiliava muito o velho Jó, que nos longos anos vividos no deserto adquirira a sagacidade de um índio. 

Depois da volta de Arnaldo à fazenda, o capitão-mór nunca mais falou do velho, nem aludiu ao fogo da capoeira. Era fato que parecia não ter existido para êle. E como não fosse crível que o capitão-mór deixasse ficar sem punição um caso tão grave, a gente da fazenda teve como certa a morte do solitário. Havia quem afirmasse que êle fôra devorado pelas chamas, pois ainda lhe encontrara um resto dos ossos queimados. O João Coité, porém, protestava, jurando por todos os santos, que Jó andava ao redor da casa em figura de lobishomem, e que êle já o tinha encontrado uma vez. 

Livre, pois, o velho das perseguições que sofria, consentiu Arnaldo que êle deixasse furtivamente a gruta onde o abrigara, para ocultar-se nas vizinhanças do Bargado e trazê-lo ao corrente do que alí se passava. 

O Marcos Fragoso não deu mais um passo que o sertanejo não soubesse; seguia-o como sua sombra, e por mais de uma vez o vira aproximar-se da Oiticica na esperança de fazer-se encontrado com D. Flor. 

Foi assim que êle descobriu a Bonina, e atinou com a razão do sumiço inexplicável da novilha, cujos rasto o Inácio Góis e a sua gente não puderam descobrir. 

Tinha sido uma proeza do Aleixo Vargas, que laçara a novilha no pasto e a levara aos ombros até o curral da fazenda do Bargado. O Marcos Fragoso aplaudira a lembrança; e preparou-se para no dia seguinte conduzir êle mesmo a fugitiva, toda enfeitada de nastros de fitas, e restituí-la à sua gentil senhora. 

A porteira do curral, porém, amanheceu aberta; e não houve mais notícia do animal. Os cães de vigia não tinham latido durante a noite para dar sinal, de modo que não se compreendia como se dera a fuga. O Moirão persignou-se; e assentou para si que alí andavam artes de Arnaldo ou bruxarias, o que vinha a dar no mesmo. 

Quando, pois, três dias antes chegara à Oiticica o convite do capitão Marcos Fragoso para uma montearia, Arnaldo adivinhou que o mancebo desejava, antes de pedir a mão de D. Flor, mostrar ainda uma vez à donzela sua bizarria e captar-lhe a admiração. 

Nessa mesma noite, porém, observou êle uma circunstância que o pôs de sobreaviso. 

Tinha chegado à fazenda do Bargado na véspera um bando de gente armada; vinha dos Inhamuns, donde com certeza a fôra chamar um próprio, que o Arnaldo vira partir oito dias antes. 

Além disso notou o sertanejo nessa e nas seguintes noites uma arrumação e movimento d’armas de toda a casta, que mesmo para aqueles tempos de falta de segurança, eram desusados, e indicavam preparativos de alguma expedição. 

(continua...)

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