Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Berinjelas se dão na Bahia maiores e melhores que em nenhuma parte, as quais fazem grandes árvores, e torna a nascer a sua semente muito bem.
Tanchagem se semeia uma só vez, a qual dá muita semente que se espalha pela terra que se toda inça dela.
Poejos se dão muito e bem aonde quer que os plantam, lavram a terra toda, como a hortelã, mas não espigam nem florescem.
Agriões nascem pelas ruas onde acertou de cair alguma semente, e pelos quintais quando chove, a qual semente vai às vezes misturada com a da hortaliça, e fazem-se muito formosos, e dão tanta semente que não há quem os desince, e também os há naturais da terra pelas ribeiras sombrias.
Manjericão se dá muito bem de semente, mas não se usa dela na terra, porque com um só pé enche todo um jardim, dispondo raminhos sem raiz, e por pequenos que sejam, todos prendem, sem secar nenhum, como se tivessem raízes, o qual se faz mais alto e forte que em Portugal, e dura todo o ano não o deixando espigar, e espiga com muita semente se lha querem apanhar, o que se não usa.
Alfavaca se planta da mesma maneira, a qual se dá pelos matos tão alta que cobre um homem, a quem a formiga não faz dano como ao manjericão.
Beldros nem beldroegas se não semeiam, porque nascem infinidade de uns e de outros, sem os semearem, nas hortas e quintais e em qualquer terra que está limpa de mato; são naturais da mesma terra.
As chicórias e os maturços se dão muito bem e dão muita semente e boa para tornar a semear. As cenouras, celgas, espinafres se dão muito bem mas não espigam, nem dão sementes; nem os cardos: vai muita semente de Portugal, de que os moradores aproveitam.
C A P Í T U L O XXXVII
Em que se declara que coisa é a mandioca.
Até agora se disse da fertilidade da terra da Bahia tocante às árvores de fruto da Espanha, e às outras sementes que se nela dão. E já se sabe como nesta província frutificam as alheias, saibamos dos seus mantimentos naturais; e peguemos primeiro da mandioca, que é o principal mantimento e de mais substância, que em Portugal chamam farinha-de-pau.
Mandioca é uma raiz da feição dos inhames e batatas, e tem a grandura conforme a bondade da terra, e a criação que tem. Há casta de mandioca cuja rama é delgada e da cor como ramos de sabugueiro, e fofos por dentro; a folha é de feição e da brandura da da parra, mas tem a cor do verde mais escura; os pés dessas folhas são compridos e vermelhos, como os das mesmas das parreiras. Planta-se a mandioca em covas redondas como melões, muito bem cavadas, e em cada cova se metem três quatro pauzinhos da rama, de palmo cada um, e não entram pela terra mais que dois dedos, os quais paus quebram à mão, ou os cortam com faca ao tempo que os plantam, porque em fresco deitam leite pelo corte, de onde nascem e se geram as raízes; e fazem-se essas plantadas mui ordenadas seis palmos de uma cova à outra. Arrebenta a rama desta mandioca dos nós destes pauzinhos aos três dias até os oito, segundo a fresquidão do tempo, os quais ramos são muito tenros e muito cheios de nós, que se fazem ao pé de cada folha, por onde quebram muito; quando a planta rebenta é por esses nós, e quando os olhos nascem deles são como de parreira. A grandura da raiz e da rama da mandioca é conforme a terra em que a plantam, e a criação que tem; mas, ordinariamente, é a rama mais alta que um homem, e a partes cobre um homem a cavalo; mas há uma casta, que de natureza dá pequenos ramos, a qual plantam em lugares sujeitos aos tempos tormentosos, porque a não arranque e quebre o vento. Há casta de mandioca que, se a deixam criar, dá raízes de cinco e seis palmos de comprido, e tão grossas como a perna de um homem; querem-se as roças da mandioca limpas de erva, até que tenha disposição para criar boa raiz.
Há uma casta de mandioca, que se diz manipocamirim, e outra que chamam manaibuçu, que se quer comesta de ano e meio por diante; e há outras castas, que chamam taiaçu e ma-naibaru, que se querem comestas de um ano por diante, e duram estas raízes debaixo da terra sem apodrecerem três, quatro anos.
Há outras castas, que se dizem manaitinga e parati, que se começam a comer de oito meses por diante, e se passa de ano apodrecem muito; esta mandioca manaitinga e parati se quer plantada em terras fracas e de areia.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.