Por Eça de Queirós (1888)
- Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro, segundo as regras...
Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, retomando-lhe as mãos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa:
- E deixemo-nos já de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz! trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calça! Co'os diabos, dá cá outro abraço!
Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia impressionado; Ega apresentou um copo de vermouth ao poeta:
- Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da emoção...
Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que não era a primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu phaeton, muitas vezes, e aos
seus bellos cavallos inglezes. Mas não se quizera dar a conhecer. Elle nunca se atirava aos braços de ninguem, a não ser das mulheres... Foi encher outro calice de vermouth, e com elle na mão, plantado diante de Carlos, começou, n'um tom pathetico:
- A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje tão despresada... Lembro-me até que era um volume das Eclogas do nosso delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da
natureza, esse rouxinol tão portuguez, hoje, está claro, mettido a um canto, desde que para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros esterquilinios em ismo... N'esso momento passaste, disseram-me quem eras, e cahiu-me o livro da mão... Fiquei alli uma hora, acredita, a pensar, a rever o passado...
E atirou o vermouth ás goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho de cristaes e louças, um luxo de camelias em ramos.
No entanto Alencar (que á luz viva parecia mais gasto e mais velho) começara uma grande historia, e como fôra elle o primeiro que vira Carlos depois de nascer, e como fôra elle que lhe dera o nome.
- Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pôr o nome d'Affonso, d'esse santo, d'esse varão d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua mãe que tinha lá as suas idéas teimou em que havias de ser Carlos. E justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestára; n'esses tempos podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pustula e o puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do principe Carlos Eduardo, que vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua mãe, devo dizel-o, tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, n'esse tempo eu era alguem, e lembro-me de lhe ter respondido... (Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco annos... Que digo eu? Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim, voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuaes: «Ponha-lhe o nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um heroismo ou para o labio d'uma mulher!»
Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu bravos estrondosos; Craft bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de relogio na mão, soltou de lá um muito bem desenxabido.
Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que lhe mostrava os dentes estragados.
Abraçou outra vez Carlos, atirou uma palmada ao coração, exclamou:
- Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro!
A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da sua demora - emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos - a unica pessoa alli de quem o Cohen não era intimo. E dizia, tocando o botão da campainha electrica:
- O marquez não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, está com a sua gôtta, a gôtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gôtta que tu has de ter, velhaco!
Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas tão pretas e luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas, dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gôtta de gente pobre; e era essa naturalmente a que lhe competia a elle...
Ega, no entanto, travara-lhe do braço, collocara-o preciosamente á mesa, á sua direita: depois offereceulhe um botão de camelia d'um ramo: o Alencar florio-se tambem - e os creados serviram as ostras.
Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado á navalha por uma companheira, vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma viella em sangue - uma sarrabulhada como disse o Cohen, sorrindo e provando o Bucellas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.