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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Ela respondeu-me enternecidamente:- Bem haja por essas palavras de bondade, que são talvez as últimas benévolas que eu tenho de ouvir neste mundo. Quando souber — porque tem de se saber isto, meu Deus! — oque, desde esta horrorosa noite, eu fico sendo perante a justiça e perante a sociedade, diga a sua mãe, à sua irmã, à sua amante, se tem aman te, que me não odeiem elas, ao menos! Que eu sou menos crimino sa do que lhes hei-de parecer, que fui eu que lhe c onfessei isto, aodespedir-me de si, entre a vida e a morte. Adeus!... Não lhe dou a mão... Sou indigna da amizade das pessoas de bem. O mais que eu posso pedir, eu, é piedade... Tenha piedade demim... Adeus!

A carruagem tinha rodado a distância de alguns passos, quando parou outra vez a um gesto da condessa; ela mesma abriu a portinhola, desceu e dirigiu-se a mim. Fui ao seuencontro.

— Quero falar-lhe ainda — disse ela.E depois de uma pequena pausa, em que parecia coordenar ideias dispersas, acrescentou:

— Foi talvez providencial o nosso encontro aqui, a esta hora, nesta rua... É talvez aúnica pessoa que Deus quer permitir que me proteja, que seja por mim. Tenho um parente a quem vou escrever imediatamente entregando-lhe este segredo. Receio que ele se não acheem Lisboa. Sendo assim, não sei de quem me confie. Se tiver no seu coração tanta misericórdia e tanta bondade que queira va ler-me, procure-me em minha casa, amanhã, às 11 horas.E dando-me a sua morada em Lisboa, entrou outra vez no trem que partiu.

Singular comoção a que produziu em mim essa mulher de quem acabava de saber quetinha cometido um crime; sentia-me inclina do a ajoelhar-me aos seus pés dilacerados e a adorá-la!

IV

No dia seguinte, à hora assinada, apresentei-me em casa da condessa.Era um prédio de um sé andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se--me a porta da rua, apareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões brancos, colete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabelos brancos, polido e nédio como umembaixador, sério como uma estátua, penteado como um gentleman. Falou-me em francês e conduziu-me.As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito engomado de uma camisa. Ao meio dos degraus cor ria um tapete de veludo passado em varet as de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede uma concha de alabastro, cheia deplantas de longas folhas, em cima das quais gotejava a água de uma pequena fonte. No alto da escada a mobília era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras douradasencerrando quadros a óleo. A luz, suave e alta, vinha através de vidros baços. Havia o ar sereno e o perfumado silêncio de uma tranquili dade elegante e feliz. Não me parecia o palácio de um fidalgo, nem o palacete de um burguês, mas sim o ninho doméstico de umpoeta ou de um artista.

Levantou-se um reposteiro e entrei numa sala forrada de cou ro, circundada de sofás ede poltronas com estofos de marroquim cravejado de aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quais representava o busto da condessa, assinado e datado de Milão. Um dos espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver, no meio dacasa próxima, que era um salão antigo, um piano de ébano volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um fauteuil, achava-se um violoncelo defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés demármore havia alguns livros e vasos com flores. Os móveis estavam dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas e intimas. Sentia-se que estava ali,domiciliada num aconchego fe liz, uma existência espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das coisas, o vago vestígio do perfume; de harmonia, de ca lor, que as pessoas que aí tivessem estado haviam derramada em volta de si, conversando, lendo, fazendo música.Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande espelho, uma figura imó vel, tétrica, espectral. Voltei-merapidamente, e não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa.

Horrível transformação por que ela passara! Durante as pou cas horas que haviam mediado entre esse momento e a última vez que a vira, a condessa de W... tinha envelhecidodez anos. Os olhos profundamente encovados haviam tomado uma expressão apaga da e imóvel; a carne tinha uma cor térrea e opaca; os músculos fa ciais, contraídos na maisviolenta opressão, davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o aspecto de uma magreza extrema; os cabelos apanhados todos para trás, alisados e seguros num rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e despregavam-lhe do crânio as orelhaslívidas, de uma sa liência rija e cadavérica.

Fez-me sinal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de quem — entranos domínios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos num dos quartos dela. Apontou para um sofá e sentou-se ao meu lado, olhando para mim, impassível.



(continua...)

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