Por Eça de Queirós (1901)
Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, já com o seu grande casaco de lustrina, o seu velho chapéu desabado, trazidos pelo moço da Residência, num saco de chita. Jacinto, imediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a afável hospitalidade que oferecera aos ossos, durante a construção da Capelinha nova. E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de tão longe, em tão longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.
-São avós muito remotos, e agora tão confusos! – murmurava Jacinto, sorrindo,
-Pois mais mérito ainda o de V.Exª. Respeitar um avô moto, bem é corrente... Mas respeitar os ossos dum quinto avô, dum sétimo avô!
-Sobretudo, sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente nada fizeram.
O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
-Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E pôr fim, quem muito se demora no mundo, como eu, termina pôr se convencer que no mundo não há coisa ou ser inútil. Ainda ontem eu lia num jornal do Porto, que pôr fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Não há nada inútil... Eu tinha lá na residência uma porção de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois refleti e terminei pôr me regalar com eles em xarope. Os avós de V.Exª pôr cá andaram, pôr cá trabalharam, pôr cá padeceram. Quer dizer: pôr cá serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso pôr alma, não lhes pode fazer senão bem, a eles e a nós.
E assim, docemente filosofando, paramos num souto de carvalheiras, nose esperava a velhíssima égua do Abade, porque o santo homen agora depois do reumatismo do último Inverno, já não afrontava rijamente como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente Jacinto segurou o estribo. E enquanto a égua se empurrava pelo córrego acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava o velho, nós recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, através dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta do meu Príncipe.
-Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar pôr eles o Padre Nosso, que recomenda o Abade. Somente, eu não sei, já não me lembro do Padre-Nosso.
-Não te aflijas, Jacinto, peço à tia Vicência que reze pôr mim e pôr ti. É sempre a tia Vicência que reza os meus Padre-Nossos.
Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para o desejo da Ação... E duma ação direta e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.
Depois de tanto comentar, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a criar.
Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel hortelão apanhava laranjas no alto duma escada arrimada a uma laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:
-É curioso... Nunca plantei uma árvore!
-Pois é um dos três grandes atos, sem os quais, segundo diz não sei que Filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!
-Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.
E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca acreditara inteiramente – pobre homem! – no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:
-Ó Manuel, ouça lá o que se poderia agora semear?
Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através dum lento riso, entre respeitoso e divertido:
-Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.
-Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?
O riso do Manuel crescia.
-Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca...
O meu Príncipe sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.
-Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas?
Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.
Não! o empenho era criar a árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.
No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.