Por Lima Barreto (1909)
O cais estava agitado e concorrido. O Congresso estava a fechar-se, partia um paquete para o Norte e os congressistas começavam a fugir. Os magnatas: ministros, juizes, coronéis, ricaços, engrossadores com as suas mulheres e filhas, encontravam-se ali em tocantes despedidas a amigos das duas Câmaras. A Viscondessa de Varennes, a famosa Odalina, poetisa de muito mérito e tão do gosto de Floc, viera também. O doutor Ricardo afastou-se logo dela com a senhora; mas a fidalga insinuara-se no grupo das filhas de Ávila e lá ficara a deitar os seus grandes olhos de Juno para a massa masculina, brilhante e rica, que se apinhava no cais. Chegou por último Aires d'Ávila, com a sua marcha difícil agitando a cabeça e balouçando os braços, no intuito de mais depressa impelir o corpo de chumbo.
Chegavam em carros, coupés e espalhavam-se pelo jardim, disputando as sombras das árvores em grupos de homens e senhoras. O pessoal masculino era soberbo: a nata — Senado, Câmara, altos tribunais, grandes patentes do Exército e da Marinha — cartolas reluzentes e negras sobrecasacas a enquadrar os dourados dos uniformes. Tudo vergado ao sol indiferente e forte. As senhoras sentiam-se mal, envolvidas naquelas fartas ondas de luz e calor. Os bosquetes de arbustos tinham uma despreocupação divina e as grandes árvores nodosas davam uma escassa e compassiva sombra. As lanchas de aluguel, com bandeiras em que se lia o titulo do jornal, não tinham chegado. Eu esperava, afastado do grosso da claque, tímido diante de tanta grandeza inabalável. Chegou um ministro. Um movimento igual fez todos voltarem-se para o lado em que ele vinha. A atitude foi instantânea em cada homem e em cada mulher; era como se ao centro de uma porção de limalha de ferro espalhada, se houvesse chegado um pequeno imã.
O doutor Ricardo cumprimentou a alta autoridade e, a seu chamado, foi-lhe falar. Além do ministro, intermeteu-se uma nova personagem; um preto velho, quase centenário, de fisionomia simiesca e meio cego.
Trazia na mão esquerda um caniço que distendia um arame de pescaria; com a direita, auxiliado por uma varinha, vibrava dolentemente a corda, enquanto balbaciava qualquer coisa. Ia de grupo em grupo, tangendo o seu monocórdio extravagante. Cantava talvez uma ária de uma extravagante beleza, certamente só percebida por ele e feita pela sua alma para a sua alma... Tocava e esperava esmolas. Em todas as fisionomias, havia decerto piedade, comiseração, e mais alguma coisa que não me foi dado perceber. Era constrangimento, era não sei o quê...
O preto tinha os pés espalmados e, com a cecidez e a velhice, andava de leve, sem quase tocar no chão, escorregava, deslizava — era como uma sombra...
Sob aquele sol muito forte, à rebrilhante luz daquela manhã de verão, por entre tanta gente rica e forte, aquele seu instrumento infantil, a puerilidade da música, o seu aspecto de sombra, juntavam-se para dar um relevo cortante à sua miséria e à sua fragilidade... Ele, com a sua resignação e miséria, e o sol, com a sua força e indiferença, tinham um certo acordo oculto, uma relação entre si quase perfeita. O negro ia... Ia tocando já sem forças a plangente música das recordações do adusto solo da África, da vida fácil de sua aringa e do cativeiro semi-secular!
As lanchas aproximaram-se e embarcamos. O paquete ainda fumegava, rodeado de lanchas e pequenas embarcações de remos. Logo ao entrar, demos com o novo redator. As filhas de Aires d'Ávila cercaram-no. Elas eram as figuras decorativas do jornal. Bonitas, como toda a moça que sabe dispor dos seus atavios e vestidos, não faltavam a qualquer festa do O Globo. Nos banquetes, nos piqueniques, nas soirées do diretor, nos embarques e desembarques, nos enterros, lá estavam elas com as suas lindas toilettes, irrepreensivelmente calçadas e enluvadas. Tinham uma emanação luxuriante e uns grandes olhos inquietos, banhados de muita luz; as narinas móveis aspiravam com ânsia todos os perfumes e exalações e uma delas tinha o tic de morder os lábios. Era um gosto vê-las por entre os homens, animadas, com grande satisfação nos olhos, sorrindo para este, atendendo aquele, namorando. Amavam as grandes festas, em lugares afastados, onde vai muita gente...
Cercaram logo o novo redator, estabeleceram a cordialidade entre ele e o pessoal do jornal e ficaram junto dele, quando fomos à mesa tomar champagne. O doutor Ricardo julgou do seu dever erguer um brinde; o novo redator respondeu:
— Me falece competência para falar de si, começou.
Lobo, que continuava de mau humor, não se conteve e exclamou do canto:
— Xi! Quanta asneira!
O recém-chegado não se vexou e todos ficaram calados de espanto diante da grosseria do velho gramático. Loberant olhou-o severamente e Lobo suportou-lhe o olhar com coragem. O novo redator continuou, insistindo na primeira frase, sem mais sequer olhar o pedagogo.
De volta, ainda se deu um incidente desagradável no cais. Dona Inês e as filhas do diretor já iam longe, quando ele se aproximou de um senhor de cartola. Lembrei-me que tinha sido aquele senhor que tinha chamado o ministro para embarcar, quando o doutor Ricardo conversava com o potentado. Era deputado e o doutor Ricardo altercava com ele:
— “Seu” patife! “Seu” cáften! Então você pensa que eu preciso de emprego?... Sou independente, tenho o meu jornal...
O outro respondia:
— Apulcro de Castro! Canalha! Bêbedo!
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.