Por Franklin Távora (1878)
Nem uns nem outros têm razão, Marcelina. São exagerados ambos em suas paixões. Cegou-os a vaidade, o interesse, o capricho condenável. Deviam estimar-se e auxiliar-se mutuamente como dantes; mas não; hostilizam-se, como se fossem dois povos bárbaros e inimigos, como se não tivessem laços comuns – a mesma nacionalidade, a mesma religião, a mesma língua, as mesmas leis. Porque é que brigam eles? Por um pedacinho de governo? Por uns vinténs de mais ou de menos? Por uma vila? Mas em uma terra imensa, como esta, que ainda por muitos séculos há de ser um mundo universo, onde poderão aposentar-se todas as nações da Europa, brigar por uma vila, por um engenho, um armazém, uma loja, um assento no senado da câmara, é dar testemunho de ter o entendimento obscurecido pelas trevas da ignorância ou da loucura. Querem destruir-se os dois loucos? Pois destruam-se, como querem; eu é que não hei de ir meter-me entre eles dois. Ambos são meus irmãos; mas como não posso nem mesmo com um só deles, quanto mais com ambos juntos? O recurso que tenho é deixá-los pegados até que, pela dor física, pelo sangue derramado, pela fome criem ambos medo à luta e volte um para a loja e o outro para o engenho a tratar, já com as paixões castigadas e o juízo claro, dos seus interesses particulares. O padre inclinou a cabeça, como quem meditava, e, passado um momento, voltando-se para Marcelina, disse-lhe com evidente desprazer e tristeza:
- Vou passar ao segundo ponto de minha confissão.
- Seu padre pode falar, que eu estou ouvindo com toda a atenção, respondeu a cabocla. E sentou-se para escutar melhor.
XXI
O padre prosseguiu assim a sua confidencia:
- Abro o livro da minha vida sacerdotal para ler a triste e vergonhosa historia que te quero confiar. Custa-me por extremo volver a folha negra em que está escrita, além desta historia, a minha própria condenação. Mas fio que serás indulgente para os culpados. Na juventude, Marcelina, são veementes e cegas as paixões, a carne obra como tirana; a fantasia, mais tarde estrela de branda luz, não passa então de chama afogueada – ilumina, mas queima. Quando chega a idade madura, e o entendimento, como magistrado intimo, examinando, apreciando e julgando os atos da mocidade, descobre os montões de cinzas a que o fogo da paixão juvenil reduziu sentimentos e princípios respeitáveis, e por baixo dessas cinzas fundos abismos e tenebrosas sepulturas; quando a razão, já educada pelos anos e fortalecida com o conhecimento exato das coisas, transmite à consciência suas severíssimas leis, e exige o preenchimento delas, a frágil personalidade humana não tem para sua defesa outra voz além desta: ‘Perdão, ó homens! Perdão, ó Deus!’ Presta atenção, Marcelina. É chegado o momento do terrível sacrifício. Vou enfim abrir a teus olhos o lugar mais recôndito do meu coração. Não te aterres com o espetáculo, nem digas a ninguém que debaixo das cinzas de minha velhice se aninha uma serpente que me prende, como anel de fogo, ao inferno.
- - Seu padre! exclamou a cabocla, profundamente abalada. Juro-lhe que lhe guardarei segredo até à morte. Houve aqui há anos uma terrível epidemia de bexigas desde o Recife até à Paraíba. Morreu gente sem conta por esses povoados e estradas afora. Tu hás de estar lembrada.
- Ainda me lembro dessa peste. Se eu estive às portas da morte...
Pois bem. Por esse tempo achava-me eu no convento de Iguarassú, donde, por ordem do bispo, parti para Tres-ladeiras, a fim de prestar os socorros espirituais à pobreza, que estava aí morrendo no maior desamparo e impenitência. Uma noite de muita chuva, tenho ainda na memória bem frescos todos os passos, especialmente os primeiros do meu erro, quando eu voltava de um sitio aonde tinha ido ouvir de confissão um moribundo, senti-me de repente assaltado de tremedeiras tão fortes que não sei como não vim do cavalo em terra; estava pesteado. Felizmente, alguns passos adiante, havia uma casa na beira do caminho, e dentro dela vi lume aceso. Pedi agasalho, o qual não se fez esperar. As moradoras, que me conheciam de ver-me passar todo dia pela porta, acolheram-me com as maiores atenções. Era uma mãe com sua filha, ambas viuvas. Não só durante o período agudo da enfermidade, mas durante a convalescença, que foi longa, nunca resfriou o zelo delas. A filha era nova e mui gentil. Enfim, Marcelina, quando voltei um mês depois à minha casa, levava comigo dois inimigos cruéis, uma paixão e um remorso. O primeiro destes inimigos pude vencer, pretextando cansaço e fraqueza, e voltando ao convento; o segundo porém nunca mais saiu de minha consciência; há de baixar comigo à sepultura. Só Deus sabe, Marcelina, se esse crime não chamou sobre minh’alma a condenação eterna. - Deus tem sempre o perdão para os bons.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.