Por Franklin Távora (1876)
Os mais animosos que haviam corrido a pôr-lhe as mãos para segurá-lo, tomando o gesto respeitoso que bem denotava o bom natural do bandido, por uma ameaça, ou meneio de agressão, recuaram amedrontados.
Cristóvão de Holanda Cavalcanti, sustentando os foros de uma estirpe que já se havia ilustrado em 1710, e que no Brasil independente -estava destinada a figurar com o brilho que sabemos, aproximou-se do bandido e com o ar e jeito grave que lhe davam a nobreza e a autoridade que revestia:
— É você o Cabeleira ? — perguntou ele ao mancebo.
— Saberá V. Sª que sou eu José Gomes — respondeu ele sem hesitar nem subterfugir.
Uma centena de vozes confirmou esta resposta franca, completa, e própria do seu grande ânimo.
— José Gomes — disse-lhe Cristóvão pondo a mão direita no ombro do mancebo — , você pelos enormes crimes que tem cometido, está preso em nome da lei, e vai responder perante a junta de justiça.
Então, em conformidade da ordem dada por ele, um toque de corneta, que atroou a solidão, anunciou que o criminoso tinha caído nas mãos dos agentes da força pública.
— Gonçalo Pais — disse Cristóvão voltando-se para o seu ajudante — , mande soltar o matuto, que denunciou o criminoso. Se este não fosse encontrado dentro do cerco, o denunciante pagaria com três tratos de polé a humilhação a que me houvesse exposto perante o governador. Como se verificou a sua declaração, será recompensado pelo régio erário, e recomendado à munificência del-rei nosso senhor.
Meia hora depois, Marcolino, montado em fogoso cavalo baio, desapareceu com ar e jeito de quem alcançou grande vitória, no caminho de Santo Antão, a levar a notícia de uma prisão que salvara a sua honra, e com que ele se considerava coberto de glória.
CAPÍTULO XVII
Grande concurso de povo tomava uma tarde uma das embocaduras da rua do Amparo da ilustre vila de Goiana.
Depois de algum tempo chegaram de longe, do lado do Barro Vermelho, ao ponto da reunião os sons de um clarim, que logo cessaram para deixarem ouvir os rufos de um tambor.
A este sinal, sofregamente esperado, alvoroçou-se a multidão. As mulheres compuseram seus lenços no pescoço, os lençóis na cabeça, os cabeções de rendas, então muito em uso. As mães conchegaram bem a si os filhos menores, que tinham pela mão; os pais foram ocupar seu posto, que não mais desampararam, ao pé das consortes e filhas, que se mostravam temerosas do que poderia vir a acontecer, porque, em muitos dos circunstantes, à curiosidade se substituiu logo o terror pânico, difícil de vencer, e sempre contagioso e pegadiço.
A rua do Amparo contava então uma só casa de sobrado.
Via-se na varanda deste d. Leonor, mulher do capitão-mor. Seus belos olhos estavam voltados para o extremo da rua onde era tudo confusão e burburinho. Entre os anéis dos seus negros cabelos brilhavam ricas flores de ouro e coral, semelhantes a malmequeres e pitangas. Um vestido de seda azul, com ramos de rosas brancas que lhe subiam da fímbria à cintura, deixava adivinhar as formas admiravelmente corretas da nobre senhora, cuja gentileza impunha a todos preito com que se não daria mal uma princesa. A seu lado, mostravam-se outras senhoras pertencentes às primeiras famílias da vila.
De repente ouviu-se de novo o clarim, a quem coube a distinção de anunciar a entrada da tropa com o grande prisioneiro.
A soldadesca rompeu por entre a multidão, e encaminhou-se à casa do capitão-mor.
Este vinha à frente do batalhão, e montava sua cavalgadura de estimação ricamente ajaezada. Ao lado do capitão-mor mostravam-se alguns coronéis de ordenanças.
O prisioneiro aparecia no centro da tropa. Sua fisionomia estava triste; mas não tinha a carregada expressão da perversidade, nem o vil abatimento da covardia. Seu passo, posto que forcado, era firme, qual devera ser o de um homem de poderosa organização, aos 24 para 25 anos de idade.
Faltava porém a esse homem a prontidão nos movimentos físicos a que por inúmeras vezes devera sua salvação. Uma corda de couro cru prendia-lhe em diferentes anéis os braços, poucos dias antes prestes a levar a destruição e a morte a afastadas regiões.
Poucos foram os que não tiveram os olhos arrasados de lágrimas quando viram escravo de uma cadeia ignóbil o infeliz moço, que, ainda ontem, tinha a imensidão a seu dispor, e era livre como as feras no deserto. A presença do infeliz despertara a piedade de quase todos os espectadores.
Naquele tempo a cadeia de Goiana não tinha a solidez da que se vê presentemente na rua Direita. Era uma casa de um só pavimento a que faltavam quase todas as condições de segurança e higiene que as penitenciárias modernas reúnem.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.