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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Perdoe-me, meu bom, meu querido pai; só em um caso extremo eu me lembraria de morrer. Eu sei que devo viver para meu pai, e é isso que eu quero; mas para isso será preciso que eu me case com um disforme?... oh! isto é escárnio e opróbrio demais! Tenham-me debaixo do mais rigoroso cativeiro, ponham-me na roça de enxada na mão, descalça e vestida de algodão, castiguem-me, tratem-me enfim como a mais vil das escravas, mas por caridade poupem-me este ignominioso sacrifício!...

— Belchior não é tão disforme como te parece; e demais o tempo e o costume te farão familiarizar com ele. Há muito tempo não o vês; com a idade ele vai-se endireitando, que é ele ainda muito criança.

Agora o desconhecerás; já não tem aquele exterior tão grosseiro e desagradável, e tem tomado outras maneiras menos toscas. Toma ânimo, minha filha; quando saíres deste triste calabouço, o ar da liberdade te restituirá a alegria e a tranqüilidade, e mesmo com o marido que te dão poderás viver feliz...

— Feliz! — exclamou Isaura com amargo sorriso: — não me fale em felicidade, meu pai. Se ao menos eu tivesse o coração livre como outrora... se não amasse a ninguém. Oh!... não era preciso que ele me amasse, não; bastava que me quisesse para escrava, aquele anjo de bondade, que em vão empregou seus generosos esforços para arrancar-me deste abismo. Quanto eu seria mais feliz do que sendo mulher desse pobre homem, com quem me querem casar! Mas ai de mim! devo eu pensar mais nele? pode ele, nobre e rico cavalheiro, lembrar-se ainda da pobre e infeliz cativa!...

— Sim, minha filha, não penses mais nesse homem; varre da tua idéia esse amor tresloucado; sou eu quem te peço e te aconselho.

— Por que, meu pai?... como poderei ser ingrata a esse moço?...

— Mas não deves contar mais com ele, e muito menos com o seu amor.

— Por que motivo? porventura se terá ele esquecido de mim?...

— Tua humilde condição não permite que olhes com amor para tão alto personagem; um abismo te separa dele. O amor que lhe inspiraste, não passou de um capricho de momento, de uma fantasia de fidalgo. Bem me pesa dizer-te isto, Isaura; mas é a pura verdade.

— Ah! meu pai! que está dizendo!... se soubesse que mal me fazem essas terríveis palavras!... deixe-me ao menos a consolação de acreditar que ele me amava, que me ama ainda. Que interesse tinha ele em iludir uma pobre escrava?...

— Eu bem quisera poupar-te ainda este desgosto; mas é preciso que saibas tudo. Esse moço... ah! minha filha, prepara teu coração para mais um golpe bem cruel.

— Que tem esse moço?... perguntou Isaura trêmula e agitada. Fale, meu pai; acaso morreu?...

— Não, minha filha, mas... está casado.

— Casado!... Álvaro casado!... oh! não; não é possível!... quem lhe disse, meu pai?...

— Ele mesmo, Isaura; lê esta carta.

Isaura tomou a carta com mão trêmula e convulsa, e a percorreu com olhos desvairados. Lida a carta, não articulou uma queixa, não soltou um soluço, não derramou uma lágrima, e ela, pálida como um cadáver, os olhos estatelados, a boca entreaberta, muda, imóvel, hirta, ali ficou por largo tempo na mesma posição; dir-seia que fora petrificada como a mulher de Ló, ao encarar as chamas em que ardia a cidade maldita.

Enfim por um movimento rápido e convulso atirou-se ao seio de seu pai, e inundou-o de uma torrente de lágrimas.

Este pranto copioso aliviou-a; ergueu a cabeça, enxugou as lágrimas, e pareceu ter recobrado a tranqüilidade, mas uma tranqüilidade gélida, sinistra, sepulcral. Parecia que sua alma se tinha aniquilado sob a violência daquele golpe esmagador, e que de Isaura só restava o fantasma.

— Estou morta, meu pai!... não sou mais que um cadáver... façam de mim o que quiserem...

Foram estas as últimas palavras que com voz fúnebre e sumida proferiu naquele lôbrego recinto.

— Vamos, minha filha, disse Miguel beijando-a na fronte. Não te entregues assim ao desalento; tenho esperança de que hás de viver e ser feliz.

Miguel, espírito acanhado e rasteiro, coração bom e sensível, mas inteiramente estranho às grandes paixões, não podia compreender todo o alcance do sacrifício que impunha à sua filha. Encarando a felicidade mais pelo lado dos interesses da vida positiva e material, não pelos gozos e exigências do coração, ousava conceber sinceras esperanças de mais felizes e tranqüilos dias para sua filha, e não via que, sujeitando-a a semelhante opróbrio, aviltando-lhe a alma, ia esmagar-lhe o coração. Queria que ela vivesse, e não via que aquele ignominioso consórcio, depois de tantas e tão acerbas torturas por que passara, era o golpe de compaixão, que, terminando-lhe a existência, vinha abreviar-lhe os sofrimentos.

Malvina achava-se no salão, e ali esperava o resultado da conferência que Miguel fora ter com sua filha. Rosa e André, de braços cruzados junto à porta da entrada, também ali se achavam às suas ordens.

(continua...)

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