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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Tenho pensado, primo. Êste Campelo é de uma desmarcada soberba. Êle andou outrora em competências com meu pai; e teria acabado seu inimigo, se a morte não o livrasse do homem que podia fazer-lhe frente neste sertão. 

— Receia que lhe recuse a mão da filha? 

— É muito capaz. Não reparou que até agora ainda não veio dar-me a boa-vinda, que é de rigor entre vizinhos? Contentou-se em mandar-me o seu guarda-costa ou ajudante, como o chama; e isso a-pesar-da hospitalidade que fomos pedir lhe ao passar por sua fazenda. 

— Talvez porisso entendesse que estava dispensado de vir pessoalmente, pois já nos havia mostrado o seu agasalho. 

— Não; é pura sobranceira, que usa com a gente dêste sertão. Julga-se acima de todos. Eu já o sabia por informações e acabei de certificar-me. Se não fosse a formosura e prendas da filha, que me cativaram, já teria rompida. O meu vaqueiro, pensa o primo, que me obedece? A cada ordem que lhe dou, sai-se com êste mote: «O sr. capitão-mór proibiu.» — Depois de nossa cjegada, recomendei-lhe que abrisse a reprêsa da várzea, para que as chuvas não alagassem o caminho, como o primo tem visto, que é um brejal. Que me havia de responder o José Bernardo? — «Rasgar a reprêsa, patrão? A que o sr. capitão-mór mandou fazer, êle mesmo, o ano passado? Do que Nossa Senhora me livre e guarde. Era preciso que eu tivesse perdido o juízo». Ordenei-lhe então que se entendesse de minha parte com o capitão-mór; e êste sabe o que lhe disse? — «Seu patrão que me fale, êle mesmo». Veja o que podem em mim os olhos de D. Flor. 

— Tudo isto, primo Fragoso, é razão para abreviar êsse negócio e decidí-lo quanto antes. Em sabendo suas intenções, o homem há de mudar. 

— Compreende, primo Ourém, que se tal acontecesse, era uma afronta que eu, Marcos Fragoso, não sofro e ninguém, por mais poderoso que êle se julgue. Também tenho orgulho; e na minha família a paciência não é virtude de raça. Ainda ninguém ofendeu um Fragoso, que não recebesse o castigo. 

— Neste caso tornemos ao Recife.

— Está assim tão apressado? 

— Confesso que não tenho nenhuma curiosidade ver pôsto em auto cá no sertão o rapto das Sabinas, disse Ourém motejando. 

Êste remoque excitou alguma surpresa em Fragoso, que fitou o semblante de seu primo 

com desconfiança. Não se apercebeu disto o Ourém, cujas palavras não tinham oculto sentido. 

— Estou que não chegaremos a tal extremidade, replicou Fragoso no mesmo tom de gracejo. A-pesar-de toda a sua arrogância, o capitão-mór Campelo não há de ser tão difícil de contentar. 

— Para mim é fora de dúvida. Onde irá êle achar melhor aliança. 

— Em todo o caso eu estou prevenido. 

— Faz bem. É o meio de enganar a esperança. 

— E de impedir que se malogue, acrescentou Fragoso vivamente. 

— Não diga tanto. 

— Pois eu afirmo. 

Desta vez foi Ourém que fitou o olhar no rosto do primo para ler aí a explicação de suas palavras. O sorriso de Fragoso ainda mais o embaraçou. 

— O primo tem algum propósito? 

— Não perguntou quando íamos à Oiticica? Pois já estamos em caminho. 

— AH! Então esta montearia?… Que ela era em honra de Diana caçadora, eu sabia; mas não suspeitava que teríamos um eclipse da lua, logo pela manhã. Assim Endimião prepara-se a arrebatar do céu a deusa? 

— Pretendo entender-me com o capitão-mór na volta; conforme o que êle resolver, amanhã estaremos em sua fazenda, para fazer-lhe o pedido com as cerimônias do costume e que êle não dispensa; ou iremos caminho do Recife. 

— Desta alternativa é que eu não tenho receio. Havemos de tornar ao Recife, mas depois das bodas. 

— Quem sabe? Podem fazer-se lá, observou Fragoso com o mesmo sorriso malicioso que já uma vez excitara o reparo de Ourém. 

— Também é verdade, sem que haja necessidade de me estar o primo Fragoso a falar por alusão e com palavras encobertas. 

— Pois quer mais claro, primo Ourém? 

— O rapto das Sabinas de que falei há pouco efetuou-se no meio de uma festa. Lembra-se? 

— Muito pouco. Fui mau estudante de latim e já não sei por onde anda o meu Eutrópio. 

— Os romanos convidaram os seus vizinhos para assistirem a uns jogos marciais; no meio do espetáculo os surpreenderam, e tomaram-lhes as filhas. 

— A que vem agora a história romana neste sertão? Não me dirá? 

— Olhe; as suas meias palavras seriam capazes de fazer-me desconfiar que esta montearia tinha o mesmo fim. 

— E que lhe parecia o alvitre? 

— Muito romano, primo, e bem vê, que eu, na minha qualidade de togado, sou pelos meios conciliadores, cedant arma togœ, como disse o velho Túlio. 

(continua...)

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