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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Da ilha de São Tomé levaram à Bahia gengibre, e começou-se de plantar obra de meia arroba dele, repartindo por muitas pessoas, o qual se deu na terra de maneira que daí a quatro anos se colheram mais de quatro mil arrobas, o qual é com muita vantagem do que vem da Índia, em grandeza e fineza, porque se colheu dele penca que pesava dez e doze arráteis, mas não o sabiam curar bem, como o da Índia, porque ficava denegrido do qual se fazia muita e boa conserva, do que se não usa já na terra por el-rei defender que o não tirem para fora. Como se isto soube o deixaram os homens pelos campos, sem o quererem recolher, e por não terem nenhuma saída para fora apodreceram na terra muitas lájeas cheias dele.

Arroz se dá na Bahia melhor que em outra nenhuma parte sabida, porque o semeiam em brejos e em terras enxutas; como for terra baixa é sem dúvida que o ano dê novidade; de cada alqueire de semeadura se recolhe de quarenta para sessenta alqueires, o qual é tão grado e formoso como o de Valência; e a terra em que se semeia se a tornam a limpar dá outra novidade, sem lhe lançarem semente nova, senão a que lhe caiu ao colher da novidade. Levaram a semente do arroz ao Brasil de Cabo Verde, cuja palha se a comem os cavalos lhes faz muito mormo, e, se comem muito dela, morrem disso.

Da ilha de Cabo Verde e da de São Tomé foram à Bahia inhames que se plantaram na terra logo, onde se deram de maneira que pasmam os negros de Guiné, que são os que usam mais dele; e colhem inhames que não pode um negro fazer mais que tomar um às costas; o gentio da terra não usa deles porque os seus, a que chamam carás, são mais saborosos, de quem diremos em seu lugar.

C A P Í T U L O XXXVI

Em que se diz as sementes de Espanha que se dão na Bahia, e o como se procede com elas.

Não é razão que deixemos de tratar das sementes de Espanha que se dão na Bahia, e de como frutificaram. E peguemos logo dos melões que se dão em algumas partes muito bem, e são mui arrazoados, mas não chegam todos a maduros, porque lhes corta um bicho o pé, cujas pevides tornam a nascer se as semeiam.

Pepinos se dão melhor que nas hortas de Lisboa, e duram quatro a cinco meses os pepineiros, e dão novidade que é infinita, sem serem regados, nem estercados.

Abóboras das de conservas se dão mais e maiores que nas hortas de Alvalade, das quais se faz muita conserva, e as aboboreiras duram todo um ano, sem se secarem, dando sempre novidades mui perfeitas.

Melancias se dão maiores e melhores que onde se podem dar bem na Espanha, das quais se fazem latadas que duram todo o verão verdes, dando sempre novidades; e faz-se delas conserva mui substancial.

Abóboras-de-quaresma, que se chamam de Guiné se dão na Bahia façanhosas de grandes, muitas e mui gostosas, cujas pevides e das outras abóboras, melancias e pepinos, se tornam a semear, e nada se rega.

Mostarda se semeia ao redor das casas das fazendas uma só vez, da qual ordinariamente nascem mostardeiras e colhe-se cada ano muita e boa mostarda.

Nabos e rábanos se dão melhores que entre Douro e Minho; os rábanos queimam muito, e dão alguns tão grossos como a perna de um homem, mas nem uns nem outros não dão semente senão falida e pouca e que não torna a servir.

As couves tronchudas e murcianas se dão tão boas como em Alvalade, mas não dão sementes; como as colhem cortam-nas pelo pé, onde lhes arrebentam muitos filhos, que como são do tamanho da couvinha, as tiram e plantam como convinham, as quais pegam todas sem secar uma, e criam-se deles melhores couves que da couvinha, com o que se escusa semente de couve.

Alfaces se dão à maravilha de grandes e doces, as quais espigam e dão semente muito boa.

Coentros se dão tamanhos que cobrem um homem, os quais espigam e dão muita semente.

Endros se dão tão alto que parecem funcho, e onde os semeiam uma vez, ainda que secam, outros tornam a nascer, se lhe alimpam a terra, ainda que lha não cavem.

Funcho se dá com vara tamanha, que parece uma cana de roca muito grossa, e dá muita semente como os endros, e não há quem os desince da terra onde se semeiam uma vez.

A salsa se dá muito formosa, e se no verão tem conta com ela, deitando-lhe uma pouca de água, nunca se seca, mas não dá semente, nem espiga.

A hortelã tem na Bahia por praga nas hortas, porque onde a plantam lavra toda a terra e arrebenta por entre a outra hortaliça.

A semente de cebolinha nasce mui bem, e delas se dão muito boas cebolas, as quais espigam, mas não seca aquela maçaroca em que criam a semente, a qual está em flor e com o peso que tem, faz vergar o grelo até dar com essa maçaroca no chão, cujas flores se não secam, mas quantas são tantas pegam no chão, e nasce de cada uma uma cebolinha, a cujo pé chegam uma pequena de terra, e cortam o grelo da cebola, para que não abale a cebolinha, a qual se cria assim e cresce até ter disposição para se transpor.

Alhos não dão cabeça na Bahia, por mais que os deixem estar na terra, mas na capitania de São Vicente se faz cada dente que plantam tamanho como uma cebola em uma só peça, e cor-ta-se em talhadas para se pisarem.

(continua...)

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