Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

– Boa noite, João. – E voltando-se para D. Virgínia que fechava o piano: – É bom rapaz, este João.

No entanto os amigos íntimos, parados do alto da Rua do Alecrim, onde cada um tomava o seu destino, ainda parolavam. Segundo D. Amália, o mais satisfeito dos dois era D. Virgínia: ela é que parecia o ministro.

A bela Fradinho quis saber se ela poderia ir a S. Carlos, para o camarote do.ministério? Não, não era costume. Mas era apresentada no Paço.

– E há-de fazer boa figura! – disse D. Amália.

– São tudo ilusões – disse com secura a bela Fradinho. – O verdadeiro é cada um ser feliz em sua casa. Agora ele, sim, há-de ser um bom ministro...

– O Alípio é um génio – afirmou Fradinho. – Ainda há pouco eu dizia ao Doutor: vai-os espantar a todos. Tem ideias. E ainda dos poucos que tem ideias.

E o padre Augusto resumiu:

– Enfim, não é lá por dizer. Mas agora, estamos no poleiro!

Todos riram.

– Quero dizer – acudiu – quando digo nós... os amigos sabem, é um costume que tenho. Sou tanto daquela família... Quero dizer, enfim, o nosso Alípio está no poleiro.

Então houve um momento de silêncio. Todos gozavam aquela ideia de que eles, os amigos, os íntimos, estavam no poleiro.

Separaram-se. O Doutor desceu a Rua do Alecrim, assobiando. Fradinho chamou uma tipóia: era caso para tornar tipóia. Ofereceu-se mesmo para levar a casa D. Joana, que se estava a sentir mal do golito de champanhe. E o bacharel estava tão entusiasmado, que, para celebrar o caso, segundo me confessou depois, foi passar a noite ao prostíbulo.

Portugal sabe bem que o Ministério Nacional durou dois anos e o que foi a administração do Conde d'Abranhos nos negócios da Marinha e Ultramar.

Dois serviços que se completam e vivem um pelo outro – as Colónias e a Armada – constituem esse ministério, e, em ambos eles, Alípio Abranhos deixou os esplêndidos vestígios do seu génio administrativo. E notai que o Conde não era, como vulgarmente se diz, um homem do ofício. Até à idade de vinte e um anos – em que, nas. férias do ponto, fez uma visita à praia pitoresca de Buarcos – nunca tinha visto o mar. E esse formidável elemento, que cobre as quatro quintas partes do globo – mundo de trevas e de mistério, juncado de destroços, asfixiador, hostil ao homem – deu-lhe uma impressão que, segundo ele me disse, com aquele vigor pitoresco da sua frase, lhe fizera eriçar todos os cabelos do corpo.

Sempre detestou o mar, e se alguma vez passou a estação calmosa em Cascais, foi unicamente em respeito aos deveres sociais da sua posição no País, ou para comprazer com D. Virgínia, e depois com sua segunda mulher, a respeitável Condessa d'Abranhos. Tal era esta repugnância, que o Conde d'Abranhos nunca visitou a Inglaterra, porque, sendo esse grande país dos Pitts e dos Chaucers infelizmente uma ilha, não lhe seria possível visitá-lo sem embarcar: e o horror do Conde aos navios era invencível.

Era mesmo um sacrifício grave, quando as suas altas funções o forçavam a visitar algum navio de guerra. De resto, a mesma paisagem marítima – essa infinidade de água azul – causavalhe, como ele dizia, «um peso estúpido na cabeça», e é portanto mais para admirar que, com esta antipatia pelo mar e por tudo que dele vive ou nele trabalha, dirigisse as repartições da Marinha com tão grande brilho.

Outra circunstância que torna mais admiráveis esses serviços, é o facto do Conde – tendo dado todo o seu tempo ao estudo das questões sociais – jamais se ter ocupado do conhecimento subalterno da geografia. Segundo ele dizia, nunca pudera reter todos esses nomes esquisitos e bárbaros de rios, cordilheiras, vulcões, cabos, istmos! Assim, por exemplo, nunca compreendeu, confessou-mo muitas vezes, esses cálculos estranhos degraus, latitudes e longitudes, nem dava grande crédito à ciência da navegação.

E mais nos admiramos ainda dos serviços que prestou, quando sabemos que o seu conhecimento das nossas colónias não era detalhado. Disse-se, por exemplo, que só.depois de dezoito meses de ministro é que soube, por acaso, onde ficava Timor! Dezoito meses é um exagero pérfido de oposição mesquinha. Mas, aceitemos mesmo que só adquirisse essa insignificante informação depois de alguns meses de gerência dos negócios coloniais: – o que prova isso, senão que a sua vasta inteligência, toda voltada para os altos problemas políticos, não dava valor a essas pequenas ciências de exactidão local?

Uma ocasião, na Câmara, ele falava de Moçambique como se considerasse essa nossa possessão na costa ocidental da África. Alguns deputados mais miudamente instruídos desses detalhes, gritaram-lhe com furor.

– Moçambique é na costa oriental, Sr. Ministro da Marinha!

A réplica do Conde é genial:

– Que fique na costa ocidental ou na costa oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço. Os regulamentos não mudam com as latitudes!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5657585960...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →