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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Um esplendido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo á portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos esguedelhados, finos como seda e côr de prata; depois apeando-se, indolente e poseur, offereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um meio véo muito apertado e muito escuro que realçava o explendor da sua carnação eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova, e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez, abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos braços. E no silencio a voz de Craft murmurou:

- Très chic.

Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste. O Craft conhecia-o; Ega apresentou a

Carlos o sr. Damaso Salcêde, e mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte litterario e satanico do absintho...

Fôra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de côr de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam

affogando n'um vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como uma bela chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados inglezes, dormiam, com as mastreações immoveis, como tomados de preguiça, cedendo ao affago do clima doce...

- Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha griffon, e servida por um esplendido preto!

O sr. Damaso Salcêde, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:

- Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim com elles de Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.

Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e interessando-se:

- O senhor Salcêde chegou agora de Bordeus?

Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste: ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso:

- Vim aqui ha quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris... Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto é, verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no Hotel de Nantes... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz não tem sutaque nenhum, falla como nós. Elle sim, elle muito sutaque... Mas elegante tambem, v. ex.ª não lhe pareceu?

- Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva.

- Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.ª não toma, sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquillo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os annos, acredite v. ex.ª, até começo a andar doente. Aquelle boulevarsinho,

hein!... Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheço aquillo a palmo... Tenho até um tio em Paris.

- E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo de Gambetta, governa a França... O tio do Damaso governa a França, menino!

Damaso, escarlate, estourava de gôso.

- Ah, lá isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, até vivem quasi juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os republicanos, emfim!... É tudo quanto elle

queira. V. ex.ª não o conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...

N'esse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe, Ega exclamou: «Saude ao poeta»!

E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os anneis fôfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa de antiquado, de artificial e de lugubre.

Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braços lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada:

- Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-me cá esses ossos honrados, honrado inglez!

Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:

- Não sei se são relações. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso poeta...

Era elle! o illustre cantor das Vozes d'Aurora, o estylista de Elvira, o dramaturgo do Segredo do Commendador. Deu dois passos graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão em silencio - e sensibilisado, mais cavernoso:

- V. ex.ª, já que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dê excellencia, mal sabe a quem apertou agora a mão...

Carlos, surprehendido, murmurou:

- Eu conheço muito de nome...

E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:

- Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre, do meu valente Pedro!

(continua...)

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