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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Fiquei por um momento perplexo, Por fim, os meus passos apressaram-se para ela, saí-lhe ao encontro e disse-lhe convulsivamente: — Senhora condessa de W..., vejo que chora. É certamente um sucesso extraordinário e terrível. V. Ex-a parece-me só e desprote gida neste bairro; somente em tão exc epcionaiscircunstâncias eu poderia permitir-me a liberdade de lhe falar. Disponha de mim, minha senhora, como se dispõe de uni amigo ou de um escravo, para a vida e para a morte.Ela parecia escutar sem me compreender, numa grande in quietação. A última p alavra que proferi:

— Para a morte! — repetiu ela num grito de delírio. — Quem lho disse? Como o soube?E apoiando-se no braço da senhora que a acompanhava, se gurou-se nela com um movimento convulsivo de pavor, ergueu o rosto para mim e fitou-me, trémula, suplicante, com os olhos alucinados e lacrimosos.- Que quer? Diga! — acrescentou ela. — Quer prender-me? Aqui me tem. Leve-me.

E tendo dito isto, voltou-se sucessivamente para todos os la dos, olhando a rua com amais exaltada expressão da confusão, da vergonha e do medo. Era a angústia personificada pela maneira mais viva e mais lancinante. Eu sentia o coração cheio de lástima e de piedade.

— Perdão — disse-lhe -, sossegue por quem é! Eu nada sei. Não venho prendê-la, nemvenho interrogá-la. Não sou um juiz, nem um espião, nem um carrasco. É esta a terceira vez que a ve jo em minha vida. A primeira foi nesta mesma rua há cerca de um mês, no momentoem que um cocheiro lhe pedia o aluguer de um trem. A segunda vez foi de passagem no Rossio, há quinze dias. Sou um amigo seu desconhecido, obscuro, anónimo. Supunha-a no apogeu da fortuna e da felicidade. Tive-lhe inveja e ódio. Encon tro-a, ao que parece, à beirade um abismo e não acho na minha alma doente e magoada senão enternecimento e dedicação! Pobre senhora! É, então, desgraçada também como os outros... Coitadi nha!coitadinha!...

E a minha dor era profunda e sincera, a minha compaixão ilimi tada. — Não sei — tornou ela -, estou tão perturbada que não o com preendo bem; estou tãoaflita que não o reconheço bem, entrelembro-me apenas... Mas parece-me generoso e compadecido.. Ah! Eu não posso ter-me em pé!Dei-lhe o braço, que ela aceitou, e ficou um momento ampara da em num e na pessoa que a acompanhava, imóvel, com a cabe ça reclinada para trás e a boca a berta, bebendo ar alongas sorvos.- Vamos! -disse ela depois de uma pausa. — Não posso ficar, não posso morrer aqui; tenho que escrever, preciso de chegar a casa quanto antes.E fazendo um grande esforço, continuou a caminhar, apoiada como estava, com passo vacilante e vagaroso, ansiada, arquejan te, parando a todo o momento para receber nos pulmões o ar que lhe faltava. Eu ia absorvido pelo aspecto de tamanha dor. Acudia-me de longe a longe uma palavra, que não me atrevia a pronunciar, receando que ela pudesse imaginar que eu tentava perscrutar a causa do seu infortúnio com uma indiscrição grosseira.A rua em que íamos andava-se consertando e estava coberta de uma camada de seixos britados e soltos, por cima de cujos ângulos percucientes e cortantes éramos obrigados a caminhar. Chegáva mos à esquina da rua quando ela, voltando-se para a pessoa que aacompanhava, e que então vi ser uma criada, lhe disse:

— Betty, calça-me o sapato. Saiu-me do pé.A criada ajoelhou-se, e exclamou: — O cetim está despedaçado! O pé deita sangue! A condessa pareceu não ouvir, e continuou a caminhar resolutamente.Maravilhava-me e compungia-me o valor de alma daquela dé bil natureza, e sentia-me arrebatado a levantar do chão e a trans portar nos meus braços aquele formoso corpo tã ocorajosamente subjugado. Felizmente, de uma travessa próxima desembocou, pouco depois, um trem de praça vazio. A condessa, que tinha visi velmente a maior pressa de chegar, entrou, com a criada que a acompanhava, na carruagem que eu mandei aproximar. Fechei aportinhola e disse à condessa baixo, quase ao ouvido, dando-lhe o meu bilhete:

— Minha senhora, quaisquer que sejam as causas, quaisquer que sejam asconsequências da estranha aventura que acaba de aproximar-se de V. Ex.», vá na firme certeza de que ninguém no mundo saberá do encontro que acabamos de ter. Se nunca precisar de mim, continuarei como até hoje sendo na sua existência um ho mem inteiramentedesconhecido, o qual doravante considerará as suas relações com V. Ex.» exactamente no estado em que estavam antes de a ter visto pela primeira vez.



(continua...)

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