Por Eça de Queirós (1901)
O meu Príncipe encolheu os ombros. Pôr esse Reino... Na igrejinha, no cemitério de alguma das freguesias numerosas, onde ele possuía terras. Casa tão espalhada!
-Bem! – concluí. – Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data, convém uma cerimoniazinha muito simples, muito sóbria.
-Quietinha, quietinha! – murmurou o Silvério, dando um forte sorvo assobiado ao café.
E foi quietinha, duma rústica e doce singeleza a cerimônia daqueles altos senhores. Cedo, pôr uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões pequeninos, cobertos dum veludo vermelho mais de festa que de funeral, com molhos de rosas espalhados contendo cada um o seu montezinho de ossos incertos, saíram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moços da quinta, da Igreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada doçura da manhã – quando fina e levemente! – como pia um passarinho triste, Adiantem um airoso moço de sobrepeliz erguia com zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço sob um imenso lenço de rapé, de quadrados azuis, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a caldeirinha de água benta; e o bom abade de S. José, com os dedos entre o breviário fechado, movia os lábios, numa lenta, murmurosa reza, que ia pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atrás do último cofre, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, a estalar dentro dum fato preto de Jacinto, tirado à pressa duma das malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris.
Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um imenso peitilho, onde as barbas imensas se alastravam negríssimas. De casaca, com o grosso beiço descaído, descaído todo ele pôr aquela melancolia de enterro que se juntava à melancolia da serra, o Grilo enfiava no braço a sua coroa, enorme, de rosas e de heras. Pôr fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando longos rosários, rosnavam surdas ave-marias, através de espaçados suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim, pelas várzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos dos matos, escorregando mais rápida, pelos córregos pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e prateada, rebrilhando pôr vezes num breve raiozinho de Sol que, vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos de lódão ou de salgueiro passavam uma derradeira carícia sobre o veludo dos caixões.
Um regato pôr vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as relvas, sussurrando e como rezando também, alegremente; e nos quintalinhos umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima das pilhas de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e desejássemos poupar o nosso velho abade, cortamos através duma seara, já alta, quase madura, toda entremeada de papoulas. O Sol radiou: sob a brisa larga, que levara a névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo sacristão para abrigar o abade.
Jacinto tocou no meu cotovelo:
-Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples enterrar de ossos, quanta graça e quanta beleza!
Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carriça, solitária e muito nua, no meio dum adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma frescura de arbusto, dois moços seguravam à porta molhos de tochas, que o Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, soleníssimo. Dentro as curtas chamas mal luziam, mal derramavam a sua amarelidão triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estucados, na jovial claridade que caía das altas vidraças bem polidas. Em torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam, o abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas na sombra dos seus negros lenços, gemiam améns agudos, abafavam um respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom abade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos incertos Jacintos. E todos desfilamos pôr diante do meu Príncipe, timidamente encostado à ombreira, com o Silvério ao lado esmagando contra o peitilho as barbas imensas, a face descaída, cerradas as pálpebras como contendo lágrimas.
No adro, o meu Príncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao Melchior:
-E então, Zé Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?
-Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delícia.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.