Por Lima Barreto (1909)
A sua irritação — soube-se mais tarde — provinha verdadeiramente do ataque que um professor da Normal fizera à sua grande obra — Colocação dos pronomes; teoria e prática —, um fascículo de trinta e seis páginas tão embrulhado de regras que fazia mais errar quem o lesse do que mesmo acertar.
Lobo gozava de uma grande ascendência sobre o animo do diretor. Emendava-lhe os artigos e fora imposto no jornal por sua mulher, Dona Inês, a quem o padre Bos, das irmãs, recomendara como sábio. N'O Globo todos lhe temiam o mau humor, por sabê-lo influente e prestigiado, como sabichão em Gramática, em Geografia e em línguas. Loberant não escondia o seu respeito. Para ele, a mais alta expressão da cultura era falar inglês e Lobo sabia pedir água na língua do grande império.
A Gramática do velho professor era de miopia exagerada.
Não admitia equivalências, variantes; era um código tirânico, uma espécie de colete de força em que vestira as suas pobres idéias e queria vestir as dos outros. Há três ou cinco gramáticas portuguesas, porque há três ou cinco opiniões sobre uma mesma matéria. Lobo organizara uma série delas sobre as inúmeras dúvidas nas regras do nosso escrever e do nosso falar e ai de quem discrepasse no jornal! Era emendado da primeira vez, da segunda repreendido, da terceira podia ser até despedido, se ele estivesse de mau humor.
Nos seus bons dias, tinha a mansuetude e os modos convincentes de um professor de primeiras letras e recitava muitas vezes aos ouvidos do repórter recalcitrante todas as regras do Sotero sobre o emprego do infinito pessoal, chamando-o por filho, repetindo exemplo. Não admitia que se escrevesse “vieram lhe chamar”, se alguém o fizesse em dias de mau humor, era certo ter de refazer de começo ao fim o seu trabalho.
Nem todos, porém, se sujeitavam à sua inspeção gramatical; Floc, Leporace e Caxias eximiam-se e Gregoróvitch amedrontara-o com alguns berros e palavrões, quando o fiel gramático do jornal quis corrigir o seu original.
O russo entrava naquele momento na redação. O paquete chegava às onze horas e pouco faltava. Vendo-o entrar, Floc perguntou:
— Não vais, Gregoróvitch?
— A quê?
— Ao desembarque do nosso redator.
O russo não lhe respondeu logo. Sentou-se, encolheu a cabeça dentro do corpo como uma tartaruga, franziu a grande boca, depois retrucou:
— Eu! Eu vou lá a esses espetáculos... Isso é um baixo “engrossamento”...
O diretor entrava e o doutor Divã não dissimulou a resposta. Loberant, sempre autoritário com todos, era de uma delicadeza excepcional com o doutor pelo Cairo ou por Sófia.
— Você é um esquisito, Gregoróvitch — foi só o que ele observou.
E saímos. Éramos um bando à frente do qual marchava o doutor Ricardo, apressado, com as guias dos bigodes esfareladas ao vento e as abas da sobrecasaca cinzenta a baterem como asas de uma grande ave vulturina. Levava a bengala erguida e com todos nós atrás, andando celeremente, parecia um delegado em diligência ou um chefe eleitoral que vai perturbar com capangas a seção que lhe não é favorável.
Fazia um sol inclemente — sol de dezembro pela manhã. No cais já estavam a família do diretor, mulher e filhas pequenas, as filhas de Aires d'Ávila, cuja beleza tinha — gabos especiais nas conversas dos cafés e confeitarias — a claque inteira do O Globo, o núcleo que gerava e transmitia pela cidade o talento de Ávila, as qualidades cívicas do doutor Ricardo e os dotes literários do jovem Deodoro Ramalho, que lá estava com a sua noiva e o seu passo de valsista impenitente. Outros chegaram depois, Floc ficou entre as senhoras. As suas faces, os olhos, a testa breve e até os longos bigodes pretos adquiriram uma radiação especial; o próprio queixo aproximou-se do plano do peito e vim a conhecer outro Floc, simpático, interessante, todo ele cativante e natural.
Inútil é dizer que fiquei de longe, sozinho, como sempre fiquei nessas coisas e como parece ser meu destino ficar sempre. Dona Inês, a mulher do doutor Ricardo, entretanto, deu-me bom-dia e fez um “como vais Isaías”, bondoso e superior. Tinha-se na conta de ilustrada e nobre. Era o oráculo literário e intelectual do marido. Julgava-se ilustrada porque aprendera a recitar umas coisas das irmãs de Botafogo e pintar flores; nobre, porque tinha um irmão deputado e o seu pai chicanara no interior do Brasil.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.