Por Raul Pompéia (1888)
Aristarco empalideceu de despeito. Visava-o diretamente a desaforada insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espetáculo da justiça tremenda. Não quis, entretanto, arriscar o prestigio. Vimo-lo no corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a acalmar.
Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar... expulsar... falir talvez. O código, em letra gótica, na moldura preta, li estava imperioso e formal como a Lei, prescrevendo a desligação também contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao mesmo tempo... Era demais! era demais!... Entrava-lhe a justiça pelos bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquela porqueira gótica de justiça!
Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do coração! “Ah! Tinham motivo... Mas aquilo era patota do despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha culpa... Era indústria secreta a goiabada de bananas!...”
A sineta, chamando à ceia, pacificou os ânimos. Espalhou-se que Aristarco rendia-se à revolta e ia falar.
À mesma porta em que aparecera formidável de manhã, surgiu-nos transformado, manso, liso como a própria cordura e a lealdade; altivo, contudo, quanto comportava a submissão.
“Mas por quê, meus amigos, não formularam uma representação? A representação é o motim reduzido à expressão ordeira e papeliforme! Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão... Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não há misérias!... Quando alguma coisa faltar, reclamem que aqui estou eu para as providências, vosso Mestre, vosso pai!... Legitimo cascão de Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rótulo... Como podia eu suspeitar...”
Enquanto o diretor falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta lata vazia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha, espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarco mirava-se nos luminosos documentos da sua inteireza. “Legitimo cascão! legitimo cascão, meus senhores!” garantia, tamborilando com os nós dos dedos numa tampa.
Escangalhavam-se as pilhas fragorosamente pelo soalho, mas o montão subia, em desordem, cintilando reflexos amarrotados do gás. Aristarco avultava sobre as latas, como o principio salvo da autoridade. A justificação era completa. Mais algumas palavras azeitadas de ternura, e todo ressentimento cedia, e nós saudávamos o diretor, grande ali, como sempre, sobre o chamejamento do Flandres.
CAPÍTULO IX
A anistia dos revolucionários aproveitou por extensão aos execrandos réus da moralidade. Já frouxa a fibra dos rigores, Aristarco despediu-os do gabinete com a penitência de algumas dezenas de páginas de escrita e reclusão por três dias numa sala. Desprestigiava-se a Lei, salvavam-se, porém, muitas coisas, entre as quais o crédito do estabelecimento, que nada tinha a lucrar com o escândalo de um grande número de expulsões. Quanto ao encerramento dos culpados na trevosa cafua, impossível, que lá estava o Franco, por exigência expressa do Silvino, como causador primeiro das inqualificáveis perturbações da ordem no Ateneu.
Esta resolução agradou-me sumamente. Pena seria, em verdade, que perdesse eu, logo depois do Bento Alves, tão desastradamente concluído na história sentimental das minhas relações, o meu amigo Egbert.
Adquirira-o com a transição para as aulas secundárias, onde o encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, compreendemo-nos, mutuamente simpáticos, como se um propósito secreto de coisa necessária tivesse guiado o acaso da colocação.
Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificância cotidiana da vida escolar em que a gente se aborrece é favorável ao desenvolvimento de inclinações mais sérias que as de simples conveniência menineira. O aborrecimento é um feitio da ociosidade, e da mãe proverbial dos vícios gera-se também o vicio de sentir.
A convivência do Sanches fora apenas como o aperfeiçoamento aglutinante de um sinapismo, intolerável e colado, espécie de escravidão preguiçosa da inexperiência e do temor; a amizade de Bento Alves fora verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito à força, comodidade da sujeição voluntária, vaidade feminina de dominar pela fraqueza, todos os elementos de uma forma passiva de afeto, em que o dispêndio de energia é nulo, e o sentimento vive de descanso e de sono. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a simpatia não se argumenta. Fazíamos os temas de colaboração; permutávamos significados, ninguém ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e mostrar. Queimava-me o ardor inexplicável do desinteresse. Egbert merecia-me ternuras de irmão mais velho.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.