Por Franklin Távora (1876)
Uma companhia completa de milicianos achava-se ainda de ordens ao capitão-mor que tinha em mente dar novo varejo nos matos, por ocasião de sua volta a Goiana. Essa companhia partira incontinente, tendo à sua frente Cristóvão de Holanda, para o lugar onde se tinha de verificar a importante diligência. Ordens terminantes foram expedidas durante a noite aos coronéis de ordenanças que se achavam mais próximos, a fim de que antes do amanhecer se achassem com fortes partidas no lugar indicado.
Um inimigo poderoso que houvesse batido às portas da freguesia não teria motivado o movimento de tropas que se verificara nas doze horas daquela noite com prontidão que faz honra à disciplina militar daqueles tempos.
Pela manhã as paragens contíguas ao ponto assediado figuravam um pequeno campo de batalha. Cerca de duzentos praças achavam-se ali reunidas, por que o assédio fosse sustentado com todo o rigor militar.
Ao cair da tarde um oficial ofereceu-se para penetrar no canavial com doze homens de sua escolha, assegurando que o bandido não viria a contar vitória.
Cristóvão de Holanda, tendo ouvido os seus coronéis sobre a proposta do destemido oficial, considerou-a inconveniente por dar ocasião à luta pessoal, da qual poderia resultar a morte do bandido.
Não havendo, para conseguir-se a rendição deste, outro meio que o assédio, foi este resolvido por unanimidade.
O Cabeleira tentou mais de uma vez iludir a vigilância das guardas durante a noite, mas em vão. Antes de escurecer essas guardas eram reforçadas, e a vigilância dobrava na proporção das facilidades que naturalmente a noite oferece para a evasão.
Passaram-se dois dias sem resultado. Ninguém, durante esse espaço de tempo, havia visto o prisioneiro. Começou-se a desconfiar de sua existência dentro do canavial.
Marcolino foi interrogado pela segunda vez, e declarou que tinha visto o bandido entrar ali, só e sem armas.
Esta última declaração veio aumentar a desconfiança geral. Não se pôde, com razão, explicar que o famoso assassino se houvesse despojado, para penetrar ali, de suas armas no momento em que mais se expunha à ação da justiça.
Marcolino, à vista destas considerações, às quais nada teve que opor, começou a descrer de si mesmo e a acreditar que seus olhos o tinham enganado. O desanimo, a tristeza, a vergonha, que já o haviam deixado, volveram a abatê-lo novamente.
Cristóvão de Holanda excogitava já um meio de sair com honra da situação em que se via, quando lhe lembrou mandar arrasar o canavial.
Toda a fábrica foi chamada incontinente ao lugar onde as foices afiadas tinham de abater em poucas horas a ridente floresta que durante quase três dias servira de pitoresca muralha ao Cabeleira.
Ele ouviu do centro da espessura onde estava, com o sangue-frio que é natural aos homens afeitos aos perigos, o rumor, ao princípio afastado, depois mais próximo, da queda dessas toucaria abençoadas a que devia o franco asilo que nunca encontrara entre os seus semelhantes.
O círculo foi-se estreitando gradualmente em torno do prisioneiro, com a rapidez de um incêndio que ao mesmo tempo avança da circunferência ao centro.
A proporção que as camadas iam caindo aos golpes dos possantes segadores, eram logo retiradas a fim de que se tivesse sempre desobstruída a passagem, e fácil fosse o acesso ao ponto objetivo.
As linhas militares, que mantinham o assédio, acompanhando o decrescimento do espaço que desaparecia aos olhos dos circunstantes, tornavam-se gradualmente compactas, fortes, impossíveis de romper.
A princípio acreditou-se, não obstante o que dissera o Marcolino, que o Cabeleira não estava desacompanhado.
A cada momento esperava-se ouvir a detonação de uma descarga de dentro contra a força que cercava o ponto. Quem não se considerou exposto ao punhal, à bala, à morte julgando ter através de frágeis plantas, um inimigo, se não uma companhia de inimigos amestrados na prática de todos os crimes ?
Chegou enfim o momento dos negros descarregarem suas cortantes foices sobre o último renque de toucas — aquele que separava do campo arrasado a vasta camarinha em que se acoutara o bandido.
Desapareceu de todo o verde tufo aos olhos dos circunstantes; as duas superfícies — a exterior e a interior — uniram-se como por encanto; o Cabeleira surgiu dentre as folhas com que pouco antes brincava a brisa, agora confundidas com as palhas secas, imagem, como aquelas, do seu perdido poder.
Serena e resignada tristeza cobria-lhe o rosto queimado pelo sol que naquele momento lhe beijava a face onde haviam deixado indícios das suas garras a dor moral e a fome. Caía-lhe sobre os ombros a basta onda de cabelos, cacheados ao longe, e mais negros do que a barba escassa e nova que atestava a sua pouca idade. Seu trajo era simples: véstia de couro surrado, camisa e calça que deixavam ver, através dos rasgões, o corpo de cor branca. O Cabeleira estava descalço, e tinha a cabeça coberta por um chapéu de palha de pindoba.
Quando se achou de súbito em, presença da multidão, levou instintamente a mão ao chapéu, e descobriu-se.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.