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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

As figueiras se dão de maneira que no primeiro ano que as plantam vêm como novidade e, daí por diante, dão figos em todo o ano, às quais nunca cai folha; e as que dão logo novidade e figos em todo o ano são figueiras pretas, que dão mui grandes e saborosos figos pretos e as árvores não são muito grandes, nem duram muito tempo, porque como são de cinco, seis anos, logo se enchem de carrapatos que as comem, e lhes fazem cair as folhas e ensoar o fruto, os quais figos pretos não criam bicho como os de Portugal. Também há outras figueiras pretas que dão figos bê-baras mui saborosos, as quais são maiores árvores e duram per-feitas mais anos que as outras, mas não dão a novidade tão de-pressa como ela.

As romeiras que se plantam de quaisquer raminhos, os quais pegam e logo dão fruto aos dois anos; as árvores não são nunca grandes, mas dão romãs em todo o ano, e não lhes cai nunca a folha de todo; o fruto delas é maravilhoso no gosto e de bom tamanho, mas não dão muitas romãs por pesarem muito e caírem no chão estando em flor, com as quais árvores têm as formigas grande guerra, e não se defendem delas senão com testos de água ao pé que fica no meio; e se se atravessa uma palha por cima, por ela lhe dão logo tal assalto que lhe lançam a folha toda no chão; pelo que se sustentam com trabalho estas árvores e as parreiras, que à figueira não faz a formiga nojo.

As laranjeiras se plantam de pevide, e faz-lhes a terra tal companhia que em três anos se fazem árvores mais altas que um homem, e neste terceiro ano dão fruto, o qual é o mais formoso e grande que há no mundo; e as laranjas doces têm suave sabor, e é o seu doce mui doce, e a camisa branca com que se vestem os gomos é também muito doce. As laranjeiras se fazem muito grandes e formosas, e tomam muita flor de que se faz água muito fina e de mais suave cheiro que a de Portugal; e como as laranjeiras doces são velhas, dão as laranjas com uma ponta de azedo muito galante, às quais árvores as formigas em algumas partes fazem nojo, mas com pouco trabalho se defendem delas. Tomam essas árvores a flor em agosto, em que se começa naquelas partes a primavera.

As limeiras se dão da mesma maneira, onde há poucas que dêem fruto azedo, por se não usar dele na terra. As limas doces são muito grandes, formosas e muito saborosas, as quais fazem muita vantagem às de Portugal, assim no grandor como no sabor. As árvores das limas são tamanhas como as laranjeiras, a quem a formiga faz o mesmo dano, se lhes pode chegar, e plantam-se de pevide também.

As cidreiras se plantam de estaca, mas de pevide se dão melhor, porque dão fruto ao segundo ano; e as cidras são grandíssimas e saborosas, as quais fazem muita vantagem às de Portugal, assim no grandor como no sabor; e faz-se delas muita conserva. Algumas têm o amargo doce, outras azedo, e em todo o ano as cidreiras estão de vez para dar fruto, porque têm cidras maduras, verdes, outras pequenas e muita flor; e quem as formigas não fazem nojo porque tem o pé da folha muito duro.

Dão-se na Bahia limões franceses tamanhos, como cidras de Portugal, e são mui saborosos; e outros limões-de-perdiz e os galegos, uns e outros se plantam de pevide e todos aos dois anos vêm com novidade, os quais muito depressa se fazem árvores mui formosas e tomam muito fruto, o qual dão em todo o ano, como está dito das cidreiras; e alguns destes limoeiros se fazem muito grandes, especialmente os galegos.

Também se dão na Bahia outras árvores de espinho que chamam azamboas, de que não há muitas na terra, por se não aproveitarem nela desse fruto.

As palmeiras que dão os cocos, se dão na Bahia melhor que na Índia, porque, metido um coco debaixo da terra, a palmeira que dêle nasce dá coco em cinco e seis anos, e na Índia não dão estas palmas fruto em vinte anos. Foram os primeiros cocos à Bahia de Cabo Verde, de onde se enche a terra, e houvera infinidade deles se não se secaram, como são de oito e dez anos para cima; dizem 'que lhes nasce um bicho no olho que os faz secar. Os cocos são maiores que os das outras partes, mas não há quem lhes saiba matar este bicho, e aproveitar-se do muito proveito que na Índia se faz dos palmares, pelo que não se faz nesta terra conta destas árvores.

Tamareiras se dão na Bahia muito formosas, que dão tâmaras mui perfeitas; as primeiras nasceram dos caroços que foram do Reino e as demais de semeadas e nascidas daí a oito anos, deram fruto, e dos caroços deste fruto há outras árvores que dão já, mas não faz ninguém conta delas, e pode-se contar por estranheza esta brevidade porque se tem que quem semeia tâmaras ele nem seus filhos lhe comem o fruto senão seus netos. Estas tamareiras não dão frutos se não houver macho entre elas, e a árvore que é macho não dá fruto e é mui ramalhuda do meio para cima, e as fôlhas são de cor verde-escuro; as fêmeas têm uma copa em cima e a cor dos ramos é de um verde-claro.

C A P Í T U L O XXXV

Em que se conta de outros frutos estrangeiros que se dão na Bahia.

(continua...)

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