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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Subitamente, alguém familiar tocou no ombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com ele vinha um velho magnífico, de uma nobreza de pontífice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da samarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa de óleo, caía-lhe até à faixa que o cingia; e os ombros largos desapareciam sob a esparsa abundância dos cabelos alvos, saindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reais. Uma das mãos, cheia de anéis, apoiava-se a um forte bastão de marfim; e a outra conduzia uma criança pálida, que tinha os olhos mais belos que estrelas, e semelhava, junto ao ancião, um lírio à sombra de um cedro.

- Subi à galeria - disse-nos Manassés. - Tereis lá repouso e frescura...

Seguimos o patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro tão velho, tão augusto.

- Rabi Robã - murmurou com veneração o meu douto amigo. - Uma luz do Sanedrim, facundo e sutil entre todos, e confidente de Caifás...

Reverente, saudei três vezes Rabi Robã - que se sentara num banco de mármore, pensativo, aconchegando, sobre o seu vasto peito ancestral, a cabeça da criança mais loura que os milhos de Jopé. Depois continuamos devagar pela galeria sonora e clara na sua extremidade brilhava uma porta suntuosa de cedro com chapas de prata lavradas; um pretoriano de Cesaréia guardava-a, sonolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Aí, comovido, caminhei para o parapeito; e logo os meus olhos mortais encontraram lá embaixo a forma encarnada do meu Deus!

Mas, oh rara surpresa da alma variável; não senti êxtase nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memória longos, laboriosos séculos de história e de religião. Nem pensei que aquele homem seco e moreno fosse o remidor da humanidade... Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já não era Teodorico Raposo, cristão e bacharel; a minha individualidade como que a perdera, à maneira de um manto que escorrega, nessa carreira ansiosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antigüidade das cousas ambientes me penetrara, me refizera um ser; eu era também um antigo. Era Teodoricus, um lusitano, que viera numa galera das praias ressoantes do Promontório Magno, e viajava, sendo Tibério imperador, em terras tributárias de Roma. E aquele homem não era Jesus, nem Cristo, nem Messias - mas apenas um moço de Galiléia que, cheio de um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céu e encontra a uma esquina um netenim do templo que o amarra e o traz ao pretor, numa manhã de audiência, entre um ladrão que roubara na estrada de Siquém e outro que atirara facadas numa rixa em Emá!

Num espaço ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do pretor, sob a loba romana - Jesus estava de pé, com as mãos cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no chão. Um largo albornoz de lã grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azuis, cobria-o até aos pés, calçados de sandálias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. Não lhe ensanguentava a cabeça essa coroa inumana de espinhos, de que eu lera nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito de uma longa faixa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os ombros; um cordel amarrava-lho por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabelos secos, passados por trás das orelhas, caíam-lhe em anéis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sobre sobrancelhas densas, unidas num só traço, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. Não se movia, forte e sereno diante do pretor. Só algum estremecimento das mãos presas, traía o tumulto do seu coração; e às vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galiléia, sufocasse entre aqueles mármores, sob o pesado velório romano, na estreiteza formalista da lei.

A um lado, Sareias, o vogal do Sanedrim, tendo deposto no chão o seu manto e o seu báculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, num murmúrio cantado e dormente. Sentado num escabelo, o assessor romano, sufocado pelo calor já áspero do mês de Nizam, refrescava com um leque de folhas de heras secas, a face rapada e branca como um gesso; um escriba, velho e nédio, numa mesa de pedra cheia de tabulários e de regras de chumbo, aguçava miudamente os seus cálamos; e entre ambos o intérprete, um fenício imberbe, sorria com a face no ar, com as mãos na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado, sobre a jaqueta de linho, um papagaio vermelho. Em torno ao velário, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galiléia preso, diante do Pretor de Roma...

(continua...)

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