Por Eça de Queirós (1925)
– Sua Majestade – disse – está muito afectada. A morte do General causou-lhe uma grande emoção. Mas enfim, constitucionalmente, está satisfeito. Sente que os serviços públicos estão desorganizados. Quer um ministério forte. E necessário, com efeito, uma situação forte.
Os homens concordaram gravemente que era necessário uma situação forte. Gozavam como se fossem parte, elementos dessa força. Fradinho crescera, sentia-se um personagem; e o Doutor, cujo modo hesitante de andar dava a impressão de que não estava bem firme sobre a terra, tinha agora, plantado no meio da sala, a atitude firme de um monumento edificado pelos Romanos.
Então, para celebrar o triunfo, o bacharel propôs que se bebesse uma garrafa de Champanhe. Não o havia em casa: mandar um criado comprá-lo parecia ridículo: poderia saber-se, fornecer pilhéria à oposição. Então o bacharel ofereceu-se para ir ele mesmo buscá-lo:
– Digo que é para mim, para levar ao Dafundo, numa pândega! – exclamou.
E, pela terceira vez nessa noite, abalou pelas escadas, de chapéu para a nuca.
Alípio Abranhos, entretanto, dava outros detalhes, que todos devoravam gulosamente: S. M. estava contente com o ministério formado pelo Guedes. Não o conhecia a ele, Alípio, mas vira D. Virgínia em S. Carlos: tinham-lha mostrado e achara-a muito galante.
– É mentira! – exclamou ela, com todo o sangue na face, apopléctica de orgulho.
– Palavra de honra, filha. Disse-o ao Guedes: «Eu não conheço esse cavalheiro, mas tem uma senhora muito galante; mostraram-ma no teatro».
Então todos a felicitaram. Ah! Ah! Ia ser a beleza da Corte! Parabéns!
Ela negava. Eram tolices do Lipinho! E D. Joana, a do cirro, de comovida, começou a choramingar.
Mas o bacharel apareceu, triunfante, com duas garrafas nos braços. Ele mesmo, com a sua experiência, as abriu, fazendo estalar as rolhas. E depois de uma saúde, ficaram todos em grupo, no meio da sala, com os copos na mão, gozando a atmosfera ministerial de que já estava peneirada a casa.
O Ministro, entre Fradinho, o Doutor e o Conselheiro Andrade, felicitava-se por ter a pasta da Marinha: havia muito a fazer na Marinha. Assim, por exemplo: sendo nós os primeiros descobridores do mundo, parecia incrível que não tivéssemos ainda mandado uma expedição ao pólo!
Os três cavalheiros não pareciam excepcionalmente impressionados com aquela ideia. O Doutor mesmo, depois de reflectir, de testa franzida, e vendo que não tinha de certo nada a ganhar com aquele heroísmo geográfico, disse apenas, por civilidade:
– Tem V. Exª razão. É uma grande ideia.
– E tudo a reformar; todo o pessoal administrativo das colónias... Uma colecção de inúteis! – lembrou Fradinho.
– Também há alguma coisa a fazer nesse sentido – concordou o Ministro.
Então o Doutor pareceu particularmente entusiasmado:
– Tem V. Exª muitíssima razão! Isso é que é uma grande ideia!
Mas era quase uma hora da manhã. A infeliz D. Joana foi pôr os seus agasalhos. E as felicitações recomeçaram: os beijos chilreavam na face corada de D. Virgínia; o Ministro sentia a mão apertada ao mesmo tempo pelo bacharel, pelo Conselheiro, pelo Doutor; e Fradinho, acendendo o charuto, disse com uma voz em que se sentia o gozo daquela intimidade:
– Amanhã por cá apareço, para falarmos...
– Amanhã é que é ler os jornais! – exclamou padre Augusto.
Então o Doutor foi outra vez sublime: com uma verbosidade, espantosa naquele melancólico, exclamou:
– A nomeação vem no Diário do Governo,. amanhã: pois, meus senhores e minhas senhoras, eu vou mandar encaixilhar o Diário do Governo!
Aquela graça pareceu deliciosa. E a escada esteve um momento toda sonora de risinhos, de frufrus de vestidos, e do ruído que fazia o bacharel, muito estroina, pulando os degraus a dois e dois.
Mal a porta se fechou, D. Virgínia correu à cozinha, e diante dos criados em pé:
– Então vocês sabem?... O Sr. foi feito Ministro. Daqui por diante, vocês devem sempre dizerlhe Sr. Ministro. É o costume.
Quando voltou à sala, Alípio Abranhos, nervoso, passeava, com o peito alto, passando a mão pelo cabelo.
– Então que lhe parece, Srª D. Virgínia? –disse radiante; – está satisfeita?
– E tu, diante de toda essa gente, com aquela mentira a respeito do que disse o Rei!
– Ó filha, juro-te que é verdade. Juro-te. Disse-o ao Guedes, palavra... E muito natural!. Pois os amigos parece que estão contentes... E o Doutor, hem? Tem graça!
Hem?... E bom diabo... E tem talento... O diabo tem talento!
A porta abriu-se e o João, o criado, muito sério, pronunciou estas palavras:
– A que horas quer V. Exª o almoço, Sr. Ministro?
Alípio, tomado de surpresa, sentiu por todo o corpo uma carícia deliciosa; ficou um momento a gozá-la, num sorriso mudo, e com bondade:
– Às dez. Chame-me às nove horas, João.
– Tenha V. Exª muito boas-noites, Sr. Ministro.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.