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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Quando a campainha retiniu fortemente às dez horas, Luísa, havia momentos, sentara-se à beira do divã. Mal teve força de dizer a Basílio:

- Há de ser a Juliana, tinha ido fora...

Basílio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi acender um charuto. Para quebrar o silêncio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a ária do terceiro ato do Fausto.

- Al pallido chiarore Dei ostri d'oro...

Luísa, através das últimas vibrações dos seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquela melodia, uma recordação foi-se formando no seu espírito, ainda estremunhado: era uma noite, havia anos, em São Carlos, num camarote com Jorge; uma luz elétrica dava ao jardim, no palco, um tom lívido de luar legendário; e numa atitude extática e suspirante o tenor invocava as estrelas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: "Que lindo!" E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mês do seu casamento. Ela estava com um vestido azulescuro. E à volta, na carruagem, Jorge, passando-lhe a mão pela cinta, repetia:

- Al pallido chiarore Dei astri d'oro...

E apertava-a contra si...

Ficara imóvel à beira do divã, quase a escorregar, os braços frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, o cabelo desmanchado. Basílio então veio sentar-se devagarinho junto dela. Em que estava a pensar?

- Nada.

Ele passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais à vontade; não era mesmo prudente ali em casa dela...

E falando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto.

- Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, pode ser reparado?

Luísa ergueu-se bruscamente; lembrara-lhe Sebastião!... E com uma voz um pouco desvairada:

- Já é tão tarde! - disse.

- Tens razão.

Foi buscar o chapéu em bicos de pés, veio beijá-la muito, saiu.

Luísa sentiu-o acender um fósforo, fechar devagarinho a cancela.

Estava só; pôs-se a olhar em roda, como idiota. O silêncio da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chama avermelhada. Piscava os olhos, tinha a boca seca. Uma das almofadas do divã estava caída, apanhou-a.

E com um ar sonâmbulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E já vinha com a lamparina, estava a arranjá-la...

Tinha tirado a cuia; subiu à cozinha quase a correr. A Joana, que estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes.

Juliana pôs-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para Joana:

- E então a que horas veio o primo da senhora?

- Veio logo que vossemecê saiu, estavam a dar as nove.

- Ah!

Desceu com a lamparina; e sentindo Luísa na alcova despir-se:

- A senhora não quer chá? - perguntou, com muito interesse.

- Não.

Foi à sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôs-se a olhar em redor, devagar, andando com um passo sutil... De repente agachou-se, ansiosamente: ao pé do divã uma coisa reluzia. Era uma travessa de Luísa, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rolos de cabelo.

- Quem anda aí? - perguntou da alcova a voz sonolenta de Luísa.

- Sou eu, minha senhora, sou eu; estive a fechar a sala. Muito boas noites, minha senhora!

Àquela hora Basílio entrava no Grêmio. Procurou pelas salas. Estavam desertas. Dois sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em atitudes lúgubres, ruminavam os jornais; aqui, além, junto a mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma satisfação plácida; as janelas estavam fechadas, a noite quente, e o calor mole do gás abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, de repente, saiu o ruído irritado de uma altercação; trocavam-se injúrias, gritava-se: - Mente! O asno é você!

Basílio estacou, escutando. Mas subitamente, fez-se um grande silêncio; uma das vozes disse com brandura:

- Paus!

A outra respondeu com benevolência:

- É o que devia ter feito há pouco.

E imediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, obscenidades.

Basílio foi ao bilhar. O Visconde Reinaldo, de pé, apoiado ao taco, seguia com uma imobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Basílio, veio para ele rapidamente, e muito interessado:

- Então?

- Agora mesmo - disse Basílio mordendo o charuto.

- Enfim, hem? - exclamou Reinaldo, arregalando os olhos, com uma grande alegria.

- Enfim!

- Ainda bem, menino! Ainda bem!

Batia-lhe no ombro, comovido.

(continua...)

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