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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Acendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei es tudar. Impossível. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim percorri-as com a vista pelo espaço de trêsou quatro páginas, maquinalmente, sem compreender o sentido de uma só palavra. Deixei o livro e fiquei por algum tempo inerte, estúpido, neutro, com a vista fixa nas órbitas ocas deuma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para mim como escancelado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deiteime.Tinham-me feito a cama nesse dia com dois desses lençóis de folhos engomados, com que minha mãe enriquecem liberalmente o meu baú de estudante. Estes lençóis tinham a aspereza do linho novo e o cheiro característico do bragal da província.«Pobre mãe, coitada!» pensava eu, deitado e embebido nessa longínqua exalação olfáctica da casa paterna. «Coitada de ti, que na simplicidade dos teus juízos julgaste dotar-me com um luxo que faria comoção em Lisboa, orlando-me dois lençóis com esta enor me renda longamente trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigáveis! Se soubesses que este paciente lavor das tuas mãos em dois anos de aplicação consecutiva, ninguém aqui oadmirou, nin guém o viu, ninguém atentou nele, a não ser a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrílegas, se os padres na minha terra se embrulhavam nos meuslençóis em dias de missa cantada! Que importa, porém, que o não apreciem os outros?... Toda esta gente é má, corrupta, perversa! Agradeçote eu, minha obscura, minha velha amiga. Nos arabescos desta renda, que eu estou apal pando na mão e que tu me consagraste,figura-se-me sentir o cor rer caprichoso e ondeado das lágrimas que choraste enquanto o vento ramalhava nas árvores, a saraiva estrepitava nas janelas, e tu desvelavas as tuas noitesde Inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu pequeno. Quando sinto no rosto o áspero contacto dos teus eriçados folhos bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom que me to casse com a ponta das suasasas purificadoras e brancas!»

Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de longe,havia na minha cama outro perfume que con trastava singularmente com este. Era o que aromatizava apele da quela mulher desconhecida, e que me ficara na mão que ela apertou. Respirei-o com uma curiosidade irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! Coleios lábios na mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse misterioso respiro de um paraíso ignoto e longínquo.É monstruoso, infernal, o turbilhão das ideias que esse aroma estranho, penetrante e cálido, me revolveu na cabeça.

Sentia os fogachos, as palpitações, a alucinação da febre. Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o travesseiro inundado em lágrimas...

Perdoa-me, Teresinha! Minha Teresinha, perdoa-me.. Não foi pensando em ti, meupuro anjo, que eu chorei tanto nessa noite!

II

Soube daí a dias que a senhora com quem me encontram era a condessa de W. Afigura dela tinha-me ficado moldada na memó ria como o rosto de um cadáver em uma máscara de gesso. Estava no Rossio quando me disseram o seu nome, ao vê-la passar em carruagem descoberta.Ia reclinada para o canto de uma vitória, quase deitada, mór bida, abstraída, indiferente, como se uma auréola invisível a se gregasse dos aspectos e dos ruídos da rua, grosseiros demais para lhe tocarem. Tinha uma sedução alucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que menos apetecia ver do que res pirar. Levava no seio uma rosa cor de palha, e umapequena ma deixa de cabelos finos, dourados, transparentes, soltos do pentea do, caíalhe na testa. Cravei os olhos nela e tirei o meu chapéu; ela viu o meu cum primento, olhou-me, como se eu lhe aparecesse pela primeira vez, com a mesma indiferença com que olharia para uma vidraça vazia ou para uma tabuleta sem dístico, e prosseguiu inalterável e imó vel comoa imagem preguiçosa da formosura arrebatada do seu pe destal por um cocheiro agaloado e por dois cavalos a trote.

Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto pude comalgumas palavras rancorosas a respeito da política a comoção que sentia.

Momentos depois, passou, na mesma direcção que tinha to mado a carruagem dacondessa, um coupé escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas cerradas. Estacircunstância, aliás naturalíssima, encheu-me de indignação e de rancor. Imaginei possível que aquele trem seguisse o da condessa e, não sei porque processo do coração ou do espírito,nasceu-me o desejo de arrom bar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro.Estás a tremer! — disse-me o amigo a quem eu dera o braço.

— Não é nada... um estremecimento nervoso. — Empalideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarna das...- Foi uma vertigem. Dá-me isto às vezes.

— Aí tens! É o efeito das vigílias e do abuso do tabaco nas fun ções do coração.- É debilidade resultante da fome — exclamei eu sorrindo e mal podendo conservar-me de pé. — Adeus, que vou jantar!

E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, enquanto o meucompanheiro acrescentava:

— Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e brometo.Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fora do casaco o ba ter do coração. Não tomei mais a encontrá-la senão na noite da catástrofe. O meu romance misterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu lugar à tragédia emque entrámos juntos.

III

Foi na noite de 20 de Julho passado. Eu voltava de casa de Z... com quem tinha estado até às duas horas; ia chegar quando sen ti atrás de mim os passos de duas mulheres. Parei. Elas passaram por mim, descendo do passeio em que eu estava, e caminhando apressadamente, Entrevi-as à luz de um candeeiro. Uma era al ta, seca, direita, idosa; a outra- para que hei-de descrevê-la? — era ela. Um relance de olhos, e conheci-a logo.

Ia inquieta, arquejante, abafada em pranto e em soluços. Comoveu-me tanto o aspecto passageiro dessa grande angústia, dessa dor suprema naquela formosa mulher há poucos diasainda tão patentemente feliz, radiosa, intemerata, que eu daria, nesse momento, a minha vida inteira para a não ver assim dobrada na lama de uma rua escura e deserta, pelo que há maisviolento, mais voluntário, mais hostil, mais implacavelmente humano: a des graça... Ela, a viva imagem da delicadeza e do mimo, expressão suprema da beleza, do domínio, da omnipotência termal, via-a de repente sucumbir envolvida pela serpente cuja cabeça euimaginava segura pelo seu pé sobre um crescente de Lua!



(continua...)

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