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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-E depois – clamava ainda o meu amigo – o Pessimismo é excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da Inércia. Se toda a meta é um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para que marchar para a meta, através dos embaraços do mundo? E de resto todos os Líricos e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer, lançam o seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das suas misérias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cósmica, e ornando assim com a auréola de uma origem quase divina as suas miúdas desgraçazinhas de temperamento ou Sorte. O bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo sem editor, e um professor sem discípulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e vive nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo de lata na algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e o cerca uma paz amável, não há então, em todo Francoforte, burguês mais otimista, de face mais jucunda, e o gozando mais regradamente os bens da inteligência e da Vida!... e outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de Jerusalém! Quando descobre esse sublime Retórico que o mundo é Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa das mãos trêmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é verdade e aflição de espírito! nada existe estável sob o Sol! Com efeito, meu bom Salomão, tudo passa – principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático, besuntado de Literatura, a sua virilidade – e onde se sumirá o lamento do Eclesiastes? Então voltará em Segunda e triunfal edição, o êxtase do Livro dos Cantares!...

Assim discursava o meu amigo no noturno silêncio de Tormes. Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou elegantes – mas eu adormecera, beatificamente envolto em Otimismo e doçura.

Em breve, porém, me fez pular, escancarar a pálpebras moles, uma rija, larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que lia o D.Quixote... Ó! bem-aventurado Príncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e pôr uma clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o Dom divino de rir, com as facécias de Sancho!

Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou então a cerimônia tão falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos – dos “respeitáveis ossos” como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o procurador, nessa manhã de Sexta-feira, em que almoçava conosco, metido num espantoso jaquetão de veludinho amarelo debruado de seda azul! A cerimônia, de resto, reclamava muita singeleza pôr serem tão incertos, quase impessoais, aqueles restos, que nós estabeleceríamos na Capelinha do vale da Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.

-Porque enfim V. Exª compreende – explicava o Silvério passando o guardanapo pôr sobre a larga face suada e pôr sobre as imensas barbas negras, como as dum turco -, naquela mixórdia... Ó! peço desculpa a V. Exª! Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, nós sabíamos bem que dignos avós de V.Exª jaziam na capela velha, assim tão antigos, com com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso respeito, certamente, mas, se V.Exª me permite, senhores já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo, quantas as caveiras que se apanharam lá embaixo na Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu caixão. Depois: Que quer V.Exª? Não havia outro meio! E aqui o sr. Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira juntamos uma certa porção de ossos, uma porção razoável... Não havia outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, pôr exemplo, faltavam! E é bem possível que as costelas dum daqueles senhores ficassem com a cabeça de outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Enfim fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juízo, cada um destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.

Lançava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Príncipe, os olhinhos agudos e reluzentes como vidrilhos.

Eu aprovei o pitoresco homem:

-Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvério. São tão vagos, tão anônimos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se tresmalhassem os restos do avô Galião.

-Não estava cá! – acudiu Jacinto. – Vim a Tormes expressamente pôr causa do avô Galião, e pôr fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da Carriça... Felizmente!

O Silvério sacudiu gravemente a calva trigueira:

-Nunca tivemos o Exmo Sr. Galião. Há cem anos, Sr. Fernandes, há cem anos que se não depositava na capela velha corpo de cavalheiro cá da casa.

-Onde estarão então?...

(continua...)

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