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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Levantara-me muito cedo naquela manhã para ir ao jornal. Não me competia o serviço diurno naquele dia; mas o redator português chegava às dez horas e eu recebera ordem para ir ao seu encontro no cais. No jornal, o diretor é uma espécie de senhor feudal a quem todos prestam vassalagem e juramento de inteira dependência: são seus homens. As suas festas são festas do feudo a que todos têm obrigação de se associar; os seus ódios são ódios de suserano, que devem ser compartilhados por todos os vassalos, vilões ou não. A recepção do redator português era uma festa sua e ele exigia esse aparato para que tivesse uma repercussão favorável na grande colônia portuguesa. Todos tinham que ir. E se bem que simples continuo, o diretor exigia terminantemente a minha presença, para mostrar aos outros periódicos rivais que no seu não havia distinções vãs, “era uma tenda de trabalho onde mourejavam irmãos”.

É outra mentira dos jornais que logo senti.

Não há repartição, casa de negócio em que a hierarquia seja mais ferozmente tirânica. O redator despreza o repórter; o repórter, o revisor; este por sua vez, o tipógrafo, o impressor, os caixeiros do balcão. A separação é a mais nítida possível e o sentimento de superioridade, de uns para os outros, é palpável, perfeitamente palpável. O diretor é um deus inacessível, caprichoso, espécie de Tupã ou de Júpiter Tonante, cujo menor gesto faz todo o jornal tremer. Para ciência dos povos, porém, aquilo é “uma tenda de trabalho onde mourejam irmãos”; e por ser assim eu tive que me levantar cedo e pedir na véspera um par de punhos a Dona Felismina. Ela entregou-mos, indagando:

— Diga-me uma coisa “Seu” Caminha: há aí uma lei que obriga todos a andarem calçados?

— Há uma postura municipal.

— Mas e verdade isso mesmo? Pois então todos, todos?

— Na rua, é. Por que se assusta?

— Dizem que as folhas falam nisso e que até, contam aí, que quem tiver pé grande tem que sofrer uma operação para diminuir os pés, como os chinas ... É verdade?

— Qual! É balela! Quem lhe contou?

Ao sair, ainda ouvi que, pelos corredores, se discutia o assunto com calor, girando sempre a conversa em torno daquela operação chinesa que o governo queria impor à população.

No escritório já encontrei Floc, perfeitamente escanhoado, a preparar a notícia da chegada do novo redator. Lia um período alto e ouvi que descrevia o estado do mar e a agitação das pequenas embarcações em torno do transatlântico. Nos jornais, os artigos impressionistas são sempre feitos antes das impressões.

Premeditou-se certa ocasião uma corrida de automóveis que foi mais tarde proibida pela polícia, por ter de efetuar-se nas ruas centrais.

O filho de Aires d'Ávila, que fazia por esse tempo um curso manhoso de Direito e escrevia no grande jornal umas sensaborias, compôs com antecedência uma discrição eloqüente da corrida. Veio a proibição; mas o artigo saiu, sob o pretexto de que tinha raros méritos literários! É assim...

Floc escrevia nervosamente as impressões que ia sentir no desembarque. Estava de costas e, de quando em quando, rasgava uma ou duas tiras escritas. Num dado momento, ergueu-se bruscamente, deixou escapar uma exclamação desesperada, amarrotou todo o papel que tinha escrito, e atirou-o com raiva à cesta. Depois de ter ido à janela, voltou a escrever com os mesmos trejeitos, com as mesmas mostras de desespero, que só desapareceu e se ocultou com a entrada do velho e esquálido gramático Lobo.

O caturra vinha também de mau humor. Não raro isso acontecia, mas naquela manhã a tempestade interior parecia ser amedrontadora. Vestia de preto, como habitualmente: uma velha sobrecasaca curta, desusada, com as abas espapadas e grandes placas luzentes nas costas. Tinha um pescoço de ave a sair de uns colarinhos muito baixos que a gravata cobria inteiramente. Usava cabelo curto, óculos sem aros e possuía uma testa curta com uma grande e constante ruga horizontal. Tinha curiosas manias. Se estava de bom humor, traduzia de uma língua para outra os provérbios e os anexins que surgissem na conversa. Era bastante alguém dizer: “de grão em grão a galinha enche o papo”; para ele retorquir da sua mesa, abandonando a revisão gramatical:

— Em francês: “petit à petit l'oiseau fait son nid”; os ingleses, porém, dizem...

Naquela manhã não parecia disposto ao seu sport favorito. Entrou carrancudo, com a ruga mais acentuada, cumprimentou ligeiramente Floc, e, já sentado, perguntou-lhe, olhando-o por cima dos óculos:

— Quem é este Sanches que escreveu este artigo sobre "Bancos emissores"?

— Não sei bem, disse Floc. Creio que é um advogado aí.

— Que ignorante! Pois esta besta não escreveu — um dos que foram — isso se admite? Qual! Como é que saem batatas destas?! Estou desmoralizado... Todos sabem que tenho aqui a responsabilidade da língua... Que dirá o João Ribeiro? o Said Ali? o Fausto? E o Rui, que dirá? Naturalmente vão acusar-me de ignorante... Vou dizer ao Ricardo que preciso ver todos os originais, senão declaro publicamente que não tenho responsabilidade com a gramática do O Globo. Não é possível ser assim!

(continua...)

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