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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquele homem pequenino, taciturno, de pince-nez e foi-se chegando, se aproximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quase como um terrível segredo:

- Eles vão ver o “caboclo”... O major há muito que o conhece?

Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.

- Então, Quaresma? fez Floriano.

- Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.

O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu com dificuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.

- Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.

Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiático; era cruel e paternal ao mesmo tempo. Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. O marechal ouviu-o distraído, com uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.

- Trazia a Vossa Excelência até este memorial...

O presidente teve um gesto de mau humor, um quase “não me amole” e disse com preguiça a Quaresma:

- Deixa aí...

Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:

- Que há, Bustamante? E o batalhão, vai?

O homem aproximou-se mais, um tanto amedrontado:

- Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel... Se Vossa Excelência desse ordem...

- É exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete. Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquela ponta de papel, a lápis azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra. Ao acabar é que deu com a desconsideração:

- Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escrito.

O major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:

- Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?

- Eu! fez Quaresma estupidamente.

- Bem. Vocês lá se entendam.

Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. Até à rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. Havia a mesma agitação de bondes, carros e carroças; mas nas fisionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar.

Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do marechal, seu companheiro do Paraguai. - Mas nós nos conhecemos! exclamou ele.

Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia.

- Não me recordo... Donde?

- Da casa do General Albernaz... Não se lembra?

Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriótico “Cruzeiro do Sul”.

- O senhor quer fazer parte?

- Pois não, fez Quaresma.

- Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha?

- Certamente, disse com entusiasmo Quaresma.

- Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é?

Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio, protestou, mas como teimassem deixou.

- Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major.

- Qual é a minha quota?

- Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?

- Pois não.

Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente:

- Então, major, às seis, no quartel provisório.

(continua...)

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