Por Raul Pompéia (1888)
Tourinho era um pouco mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa.
Nada absolutamente conformado para galã; mas era com efeito o amante.
“Venha ajoelhar-se com o companheiro.
“Agora, os auxiliares...”
Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarco no processo. O interrogatório, com o apêndice das delações da polícia da polícia secreta e dos tímidos, comprometera apenas dez alunos.
A chamado do diretor, foram deixando os lugares e postando-se de joelhos em seguimento dos principais culpados.
“Estes são os acólitos da vergonha, os co-réus do silêncio!”
Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno. Prostrados os doze rapazes perante Aristarco, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquilo um ritual desconhecido de noivado: a espera da bênção para o casal à frente.
Em vez da bênção chovia a cólera.
“... Esquecem pais e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilância inelutável de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada a fisionomia, abatida a dignidade, agravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito à individualidade humana... E encontram colegas assaz perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...”
Não posso atear toda a retórica de chamas que ali correu sobre Pentápolis. Fica uma amostra do enxofre.
Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspetores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do diretor, onde deviam ser literalmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbítrio.
Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condenados negaram, depois. Em todo caso, era de efeito o simples consta, engrandecido pela refração nebulosa do boato.
Concluída a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.
Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da circunstância uma pirraça contra o Silvino: “Eu é que sou o mau”, repetia andando à roda, “eu é que sou o bandalho, a peste do colégio!... O mau sou eu só!...” Silvino foi gradualmente perdendo a paciência. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o à terra, meteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Silvino ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da véspera, que por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra o Silvino. O inspetor salvou a força moral refugiando-se no alto da escada e fazendo de cima trejeitos enérgicos com a carteira e o lápis.
À tardinha, em nome do diretor, foram convocados a castigo os cabeças do motim.
Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do refeitório. Na qualidade de presos políticos, vitimas de generosa sedição, não nos vexava a penitência. Uns conversavam gracejando, outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armário dos aparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protetora de metal. Através do arame, na última luz vespertina, eu espiava lá dentro os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
Por trás do armário, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na sala das visitas, Aristarco e o guarda-livros. Chegavam-me palavras perdidas “... De boa família dois, um descrédito! Vão pensar... Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não há gratuitos?... Sim, sim. Quanto a mim... desagradável sempre riscar... borra a escrita... Em suma... mocidade...”
Acabavam de acender a iluminação do Ateneu.
Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho no pátio. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescritível, vozear de populaça em revolta, silvos, brados, injúrias, em que os gritos estrídulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de clamores.
Os inspetores chegaram aterrados a procurar o diretor, mostrando a cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da goiabada! Uma velha queixa.
A comida do Ateneu não era péssima.
O razoável para algumas centenas de tolinhos. Possuía mesmo o condimento indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinência insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de fígados guisados, o ano todo! Ultimamente, havia três meses, a goiabada mole de bananas, manufatura econômica do despenseiro.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.