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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

— Não... disse em segredo, que minhas lágrimas tornavam mais abafado e íntimo, ainda lhe resta uma amiga, uma irmã, uma companheira...

Ele levou à boca as minhas mãos que se orvalharam nas suas barbas úmidas de pranto.

— Mas como hei de viver agora?... prosseguiu. Como hei de viver sozinho aqui, neste frio hospital abandonado, donde vi saírem, um a um, para o cemitério, todos os entes que me pertenciam?... Diga, minha amiga, diga-me como hei de suportar esta miséria? — E cobriu o rosto com o lenço, soluçando mais forte. — Ah destino injusto e perverso!... levar-me a morte os outros todos e deixar-me a mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer! O que fico eu fazendo aqui?... O que fico fazendo?...

A sua agonia retalhava-me o coração. Chamei-lhe a encanecida cabeça para o meu colo de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.

As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.

César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as suas mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao lado do dele, em silêncio, como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por fim o nosso pensamento foi se derretendo em palavras, apenas balbuciadas. César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado, que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.

E ele murmurou, como num sonho:

— Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue... a nosso respeito... uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela nos passou cantando diante dos olhos... um irremissível desgosto de não ter sido em tempo o teu marido ou me ter feito o teu amante...

Abaixei os olhos. Era a primeira vez que falávamos abertamente do nosso velho amor.

César prosseguiu no mesmo tom: — Sim, sim, minha amiga... nós nascemos um para o outro!... Foi uma tremenda infelicidade não nos termos encontrado antes dos nossos loucos casamentos... ou não termos então rompido com todas as conveniências e com todas as convenções — para nos unirmos para sempre; para nos pertencermos, exclusivamente, sem o menor desvio da nossa ternura; e para que enfim pudéssemos ser agora, minha amada, inseparáveis companheiros neste fim de vida!...

— Não... respondi, não meu querido amigo, não seria a mesma coisa: não seríamos ainda hoje moralmente e virtualmente consorciados como somos. O casamento ou a concubinagem desvirtuariam o espírito do nosso amor, tão puro e tão elevado... O matrimônio carnal é incompatível com a sagrada amizade, com a verdadeira dedicação, porque vive dos sentidos e não do sentimento... Se tivéramos algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio, que foi tão claro e tão casto, outros laços que não o desta profunda e delicada afeição que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis para a sensualidade, não teríamos — tu em mim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...

César encarou-me surpreso:

Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?...

— Certamente. Na língua não há palavras para exprimir essas duas coisas tão diversas e até tão opostas: — o amor produzido pelo instinto sensual e o amor produzido pela simpatia e atração moral de dois espíritos que se procuram e se casam. O grande erro do casamento vulgar o que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto da procriação com o sentimento do amor ou da amizade, que nada tem a ver com ele e até o repele. O irracional também é como o homem suscetível de apego de amizade, nunca porém se preocupa com isso, quando trata de cumprir o seu mister procriador. O homem não deve ter comunicação carnal com a mulher que ama!

César mostrava-se cada vez mais surpreso.

E tua filha!... interpelou ele; tua filha não ama e não é amada pelo marido?...

— Ama sensualmente, respondi; mas, para o outro amor, para este que nos ligou até hoje, ela está perfeitamente incompatibilizada com ele. O marido não pode ser nunca o amigo. O esposo do corpo não pode ser ao mesmo tempo o esposo da alma; e nisto estava a razão de ser e a grande força dos confessores primitivos. Mas o padre não era amigo sincero e nem foi leal e foi casto; daí a causa única por que ele não persistiu e não ficou para sempre nos casais junto à mulher e ao lado do marido.

César meditou um instante, e disse depois:

(continua...)

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