Por Franklin Távora (1879)
Naquele dia, Maurícia pedira Albuquerque que mandasse por os cavalos na carruagem; queria ir à estrada de João de Barros; tinha muitas saudades de Eugênia; queria vê-la. À noitinha a mãe e a filha entraram em casa de Martins.
— Venho vê-los - disse aquela, entrando; e creio que daqui não sairei mais, senão para o cemitério. Procuro uma região aprazível para exalar o meu último suspiro.
Martins e Eugênia, que não sabiam da doença da parenta, sentiram uma impressão dolorosa, vendo-a naquela abatimento geral, que indicava próximo acabamento, e ouvindo palavras que pareciam anunciá-lo já.
Nessa mesma noite, Maurícia mandou dizer a Sinhazinha que a viesse ver, e ela não se fez esperar. Aquelas duas mulheres, que estavam padecendo do mesmo mal, abraçaram-se com ternura.
— Ainda está muito descrente, Sinhazinha? — perguntou-lhe Maurícia.
— Cada vez estou mais. A sinceridade fugiu do mundo.
— Você não tem razão para dizer isso. Deixe-se de descrença. Seu futuro está clareando. A tempestade cessará brevemente, e surgirá depois um dia risonho e esplêndido, que há de acompanhá-la por toda a vida sem nuvens e sem ventanias. — Qual, D. Maurícia! A senhora diz-me estas coisas tão bonitas para consolar-me. Ninguém melhor do que a senhora sabe que as minhas ilusões murcharam e secaram.
— Para que metes pontas de remoques nas tuas palavras? Não me queira mal, Sinhazinha. Faço votos sinceros para que você logre o que mais deseja.
Aparecendo Eugênia e Virgínia, as duas senhoras mudaram de assunto.
Eugênia disse que o mal de Maurícia desapareceria com o leite tomado todas as manhãs ao pé da vaca, banhos frios, e passeios pela estrada. Virgínia aprovou este tratamento, e Sinhazinha prometeu fazer companhia a Maurícia. Esta, porém, mostrava-se no todo desanimada. Tinha por certo o seu aniquilamento. Estava resignada, e dizia que não havia de chegar ao fim do ano.
Uma tarde, Maurícia foi atacada de febre tão forte que dela não se levantou mais. Os médicos deram à moléstia fatal um nome acabado em ite: mas o que a levou à sepultura não foi senão o sacrifício que se impusera.
Três dias depois do ataque, a casa de Martins que durante tantos anos servira de estância de prazeres puros e alegres, oferecia um espetáculo altamente contristador. Ia emudecer a voz que fizera vibrar as harpas mais harmoniosas que ainda ressoavam na pitoresca estrada; iam tolher-se finos e gelados os dedos torneados e coloridos, que arrancaram das teclas mudas e frias as mais ardentes e apaixonadas inspirações dos grandes mestres da arte dos sons e das melodias; ia, enfim, morrer aquela beleza ainda fresca, ainda admirável, dando o grande exemplo de uma rara abnegação, depois dos maiores e mais eloqüentes testemunhos de respeito ao dever conjugal. Mulheres, mirai-vos nesse espelho de aço puro! Maurícia existiu. Foi, como aqui se pinta, uma mulher que honrou seu sexo e a família brasileira.
Albuquerque e Paulo, que tinham vindo do engenho na véspera, ora se sentavam, ora passeavam pela sala comovidos mas silenciosos. Na alcova, D. Eugênia, Sinhazinha, D. Carolina e D. Teodora, em pranto, rodeavam o leito da agonizante. D. Matilde, mais perto dela do que nenhuma outra, tinha quase sobre os joelhos a sua cabeça e pegava-lhe de uma das mãos. Virgínia, que não tivera coragem de arrostar a transição daquela que ia levar consigo parte de sua alma, soluçava inconsolável em um aposento vizinho.
— O Dr. Ângelo está tão distante daqui! — disse Maurícia. Mandem chamá-lo.
Quero vê-lo antes de morrer.
— Ele vem aí - respondeu-lhe D. Matilde.
— Levo algumas saudades da vida - tornou a agonizante.
E depois disse:
— O meu sacrifício matou-me...
Foram estas as suas últimas palavras.
Depois da morte de Nunes Machado, não houve naquela estrada outro caso de morte que produzisse nos habitantes tão profunda impressão. Nem podia acontecer o contrário. Por vários anos, especialmente por ocasião das festas de São João, do Natal e da Conceição eles tinham visto passar de braço dado com alguma jovem das mais estimadas, ou algum cavalheiro de maior distinção, em grupos de famílias por baixo das árvores, colhendo flores, sorrindo feliz, gracejando e brincando, aquela senhora respeitável sem entono, esbelta sem afetação, formosa sem os esplendores da primeira juventude, sempre desejada, sempre querida e sempre digna do apreço e respeito dos que a conheciam.
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.