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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

O abalo que a visão lhe causara, o espetáculo de miséria que lhe descrevera o velho, miséria muito maior do que a sua, deram-lhe forças para prosseguir na peregrinação.

No dia seguinte entrava ele nas matas de Goitá, seu mundo virgem, em cujo seio, talvez pela razão de lhe consagrar entranhável afeto, se considerava o mais seguro e feliz dos mortais.

Deitou-se e dormiu.

Quando acordou sentiu que consigo havia acordado, mais devoradora e cruel, a fome que o tinha prostrado por terra na véspera.

Depois de ter levado quase todo o dia em vão à caça de algum fruto silvestre, deu com a vista, no meio de uma aberta que fazia a mata, sobre os estendidos canaviais do Engenho Novo.

Da lomba, onde havia parado, desceu rapidamente à orla da floresta.

Era quase noite.

Alongou os olhos pelas imensas quebradas onde a cana acamava, e só viu um mundo de verdura que lhe acenava com doces presentes.

Ah! ele podia passar meses dentro desse mundo, sem que o vissem, e sem risco de ser devorado por animais ferozes. Era uma região amiga a que se lhe abria diante dos olhos.

A planta que estava destinada a ser mais tarde a base principal da fortuna e riqueza de um vasto império; essa planta abençoada que dali punha à sua disposição nutritivo e precioso suco oferecia-lhe também proteção à sombra da sua basta folhagem. Podia ele, pobre foragido, refazer as forças no seio dessa solidão generosa que lhe daria a sorver licor suavíssimo, como o que mana de um seio maternal.

Cabeleira, rápido como um jaguar, pôs a cabeça de fora do mato, olhou, observou, e, nada vendo, atravessou o aceiro e penetrou no canavial.

Achando-se já dentro, voltou-se e observou de novo. Não viu viva alma. Do outro lado do aceiro estava a floresta virgem, donde ele havia saído. As sombras do lusco-fusco cobriam as montanhas, as quebradas, os vales, todo o retiro enfim. Em torno dele, e além das folhagens, além das planuras até onde pode chegar com a vista e com as ouças, só viu a solidão profunda, só ouviu o silêncio absoluto da natureza.

Ia adiantada a noite quando ele terminou sua refeição.

A lua discorria suavemente, entre castelos de nuvens, na vasta campina celeste, e a viração ciciava brandamente no canavial onde deixava as fragrâncias que, como abelha da noite, trazia do pau-d'arco da mata próxima em suas asas sutis.

Cabeleira pôs nos ombros as últimas das canas que quebrara e tomou a aberta por onde havia entrado. Mas foi logo obrigado a voltar sobre seus passos para não ser visto por dois negros do engenho que estavam defronte da abertura da camarinha.

O canavial não tinha somente esta saída. Mas qualquer delas para onde encaminhou seus passos se lhe mostrou tornada por escravos do engenho.

O Cabeleira achava-se tão longe de pensar que o guardavam, que acreditou, para explicar o que seus olhos descobriram, que os negros faziam quinguingu ao luar como de costume.

Deitou-se, e o sono que dormiu foi profundo e reparador. Se tivessem penetrado no lugar onde ele adormecera tê-lo-iam prendido sem dificuldade, como se fora uma criança.

Raiou enfim o dia com seu cortejo de luz e movimento.

O sol despertou o bandido com um raio que lhe enviou por entre a folhagem. Não para sair, mas unicamente para observar, o Cabeleira aproximou-se, sem fazer ruído, da primeira abertura que se lhe oferecera. O que então viu deu-lhe idéia da triste realidade que ele estava longe de suspeitar, mas que o abraçava como um círculo de ferro. Não estavam guardadas as saídas por negros como durante a noite, mas por sentinelas militares. Cedo seus olhos reconheceram que uma linha compacta de soldados cercava todo o canavial, donde não poderia sair um rato contra a vontade deles.

Oh ! como apareceu carregada aos olhos do infeliz mancebo aquela doce natureza, onde acreditara que poderia estar ao abrigo da perseguição dos homens, e da fatalidade da sorte !

"Estou perdido para sempre", pensou ele. "Cercado por todos os lados, sem companheiros que me auxiliem na evasão, sem uma arma com que possa abrir

passagem entre os que me cercam, não poderei salvar-me." Seu espírito caiu em profunda meditação.

O canavial estava literalmente sitiado. No mesmo instante em que soube, por boca de Marcolino, que o Cabeleira tinha passado do mato ao canavial, o senhor do Engenho Novo reunira a fábrica passante de trezentos negros e os mandara pôr se de guarda ao bandido.

Sem perda de tempo expedira o próprio Marcolino com uma carta participando o fato ao capitão-mor que se achava já então no seu engenho Petribu, e pedindo-lhe prontas providências.

(continua...)

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