Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
As ovelhas e as cabras foram de Portugal e de Cabo Verde, as quais se dão muito bem, umas e outras parem, tirada a primeira paridura, duas crianças e muitas vezes três, as quais emprenham como são de quatro meses e parem cada ano pelo menos duas vezes, cuja carne é sempre muito gorda, mui sadia e saborosa; e quanto mais velha é melhor, e umas e outras dão muito e bom leite, de que se fazem queijos e manteiga.
Os cordeiros e cabritos são sempre muito gordos e saborosos; a carne dos bodes é gorda e muito dura; a dos carneiros é magra enquanto são novos e depois de velhos não tem preço; e criam sobre o cacho uma carne como ubre de vacas de três dedos de grosso.
A porca pare infinidade de leitões, os quais são muito tenros e saborosos, e como a leitoa é de quatro meses espera o macho, pelo que multiplicam coisa de espanto, porque ordinariamente andam prenhes, de feição que parem três vezes por ano, se lhe não falta o macho. A carne dos porcos é muito sadia e saborosa, a qual se dá aos doentes como galinha, e come-se todo o ano por em nenhum tempo ser prejudicial, mas não fazem os toucinhos tão gordos como em Portugal, salvo os que se criam nas capitanias de São Vicente e nas do Rio de Janeiro.
As galinhas da Bahia são maiores e mais gordas que as de Portugal, e grandes poedeiras e muito saborosas; mas é de espantar que, como são de três meses, esperam o galo, e os frangões da mesma idade tomam as fêmeas, os quais são feitos galos e tão tenros, saborosos e gordos como se não viu em outra parte.
As pombas da Espanha se dão na Bahia, mas fazem-lhes muito nojo as cobras que lhes comem os ovos e os filhos, pelo que se não podem criar em pombais.
Os galipavos se criam e também fazem tão formosos como na Espanha, e davantagem, cuja carne é muito gorda e saborosa, os quais se criam sem mais cerimônias que as galinhas. E também se dão muito bem os patos e gansos da Espanha, cuja carne muito gorda é saborosa.
C A P Í T U L O XXXIV
Em que se declara as árvores da Espanha que se dão na Bahia, e como se criam nela.
Parece razão que se ponha em capítulo particular os frutos da Espanha e de outras partes, que se dão na Bahia de Todos os Santos.
E comecemos nas canas-de-açúcar, cuja planta levaram à capitania dos Ilhéus das ilhas da Madeira e de Cabo Verde, as quais recebeu esta terra de maneira em si, que as dá maiores e melhores que nas ilhas e parte de onde vieram a ela, e que em nenhuma outra parte que se saiba que crie canas-de-açúcar, porque na ilha da Madeira, Cabo Verde, São Tomé, Trudente, Canárias, Valência e na Índia não se dão as canas se se não regam os canaviais como as hortas e se lhes não estercam as terras, e na Bahia plantam-se pelos altos e pelos baixos, sem se estercar a terra, nem se regar; e como as canas são de seis meses, logo acamam e é forçoso cortá-las para plantar em outra parte, porque aqui se não dão tão compridas como lanças; e na terra baixa não se faz açúcar da primeira novidade que preste para nada, porque acamam as canas e estão tão viçosas que não coalha o sumo delas, se as não misturam com canas velhas, e como são de quinze meses, logo fiam novidade às canas de plantas; e as de soca, como são de ano, logo se cortam. Na ilha da Madeira e nas mais partes aonde se faz açúcar cortam as canas de planta de dois anos por diante e a soca de três anos, e ainda assim são canas mui curtas, onde a terra não dá mais que duas novidades. E na Bahia há muitos canaviais que há trinta anos que dão canas; e ordinariamente as terras baixas nunca e as altas dão quatro e cinco novidades e mais.
Das árvores a principal é a parreira, a qual se dá de maneira nesta terra, que nunca lhe cai a folha, se não quando a podam que lha lançam fora; e quantas vezes a podem, tantas dá fruto; e porque duram poucos anos com a fertilidade, se as podam muitas vezes no ano; é a poda ordinária duas vezes para darem duas novidades, o que se faz em qualquer tempo do ano conforme ao tempo que cada um quer as uvas, porque em todo o ano madurecem e são muito doces e saborosas, e não amadurecem todas juntas; e há curiosos que têm nos seus jardins pé de parreira que têm uns braços com uvas maduras, outros com agraços, outros com frutos em flor e outros podados de novo; e assim em todo o ano têm uvas maduras, numa só parreira; mais não há naquela terra mais planta que de uvas ferrais e outras uvas pretas, e não há nessa terra muitas vinhas é por respeito das formigas, que em uma noite dão numa parreira, lhe cortam a folha e fruto e o lançam no chão; pelo que não há na Bahia tanto vinho como na ilha da Madeira, e como se dá na capitania de São Vicente porque não tem formiga que lhe faça nojo, onde há homens que colhem já a três e quatro pipas de vinho cada ano, ao qual dão uma fervura no fogo por se lhe não azedar o que deve de nascer das plantas.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.