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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Onde o posso ver? Onde está Jesus de Nazaré, meu Senhor?

Nesse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandálias, veio cair de bruços nas lajes, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da túnica; as suas costelas magras arquejavam; por fim murmurou, exausto:

- Amo, o Rabi está no Pretório!

Gade emergiu da sua oração com um salto de fera, apertou em torno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabelos revoltos. Topsius traçara a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solenidade de um mármore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel à de Abraão, bradoume triunfantemente:

- Ao Pretório!

Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalém, numa caminhada ofegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passamos junto a um jardim de rosas, do tempo dos profetas, esplêndido e silencioso que dous levitas guardavam com lanças douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatizada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de tabuletas em forma de flores e de almofarizes; um toldo de esteiras finas assombreava as portas; o chão estava regado e juncado de erva-doce e de folhas de anêmonas; e pela sombra preguiçavam moços lânguidos, de cabelos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mãos pesadas de anéis, as sedas roçagantes das túnicas cor de cereja e cor de ouro. Além dessa rua indolente abria-se uma praça, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam; solitária, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, imóvel e como de bronze; e ao fundo, negrejavam na luz as colunatas de granito do velho palácio de Herodes. Aí era o Pretório.

Defronte do arco de entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dous legionários da Síria - um bando de raparigas, tendo detrás da orelha, uma rosa e no regaço coifas de esparto, apregoavam os pães ázimos. Sob um enorme guarda-sol de penas, cravado no chão, homens de mitra de feltro, com tábuas sobre os joelhos e balanças, trocavam a moeda romana. E os vendedores de água, com os seus odres felpudos, lançavam um grito trêmulo. Entramos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pátio, aberto sob o azul, lajeado de mármore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terraço, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do palácio, estendia-se um velário, de um estofo escarlate franjado de ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura; dous mastros de pau de sicômoro sustentavam-no, rematados por uma flor de lótus.

Aí apertava-se um magote de gente - onde se confundiam as túnicas dos fariseus orladas de azul, o rude saião de estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galiléia, e a capa carmesim de grande capuz dos mercadores de Tiberíade; algumas mulheres, já fora do abrigo do velário, alçavam-se na ponta das chinelas amarelas, estendendo por cima do rosto contra o sol uma dobra do manto ligeiro; e daquela multidão saía um cheiro morno de suor e de mirra. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lança. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres de uma toga pretexta, e mais imóvel que um mármore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha; os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos; uma fita escarlate prendia-lhe os cabelos; e por trás, sobre um pedestal que fazia espaldar à sua cadeira curul, a figura de bronze da loba romana abria de través a goela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquele magistrado melancólico.

- Um certo Pôncio, chamado Pilatos, que foi prefeito em Batávia.

Lentamente caminhei pelo pátio, procurando, como num templo, fazer mais sutil e respeitoso o ruído das minhas solas. Um grave silêncio caía do céu rutilante; só, por vezes, rompia do lado dos jardins, áspero e triste, o gritar dos pavões. Estendidos no chão, junto à balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma coluna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crianças, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lajes.

(continua...)

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