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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

– Se ouvir aqui mais uma palavra, vão todos para o meio da rua! Que despropósito! Parece uma feira!

Porém, pensou que Guedes Navarro não viria a pé, e que, na sala, se teria ouvido a.78 carruagem; essa ideia calmou-o, mas, por precaução, mandou o João para o pátio, esperar.

Quando entrou na sala havia um silêncio pesado. O bacharel fora de novo à Baixa, aos boatos; e vendo que era insuportável aquela situação, Abranhos, com grande sinceridade, falou ele mesmo na coisa.

– Era inútil que o Alfredinho se incomodasse. Eu, para lhes falar com franqueza, estou a ver o que se passa... O Guedes Navarro é meu amigo, mas, enfim, tem compromissos antigos...

Foi um alívio para todos que ele mesmo autorizasse a falar-se na coisa. Houve uma explosão alvoroçada de opiniões. Fradinho exclamou que Guedes Navarro, se tal fizesse – era um canalha!

O padre Augusto, porém, apostava, apostava, apesar do seu carácter sacerdotal, que o Guedes Navarro havia de ser leal.

Alípio, no entanto, declarou-se indiferente. Até estimava não entrar agora para o ministério! A possibilidade daquela recusa causou uma indignação geral. O quê? Recusar! Por quê?

– Que o amigo se conservasse na expectativa com o General, sim! – exclamou Fradinho. – Foi um acto digno. O General, grande homem, o que quiserem, já lá está no Reino da Verdade, mas era um insurrecto! O amigo fez perfeitamente em se afastar de semelhante comprometimento! Eu mesmo lho aconselhei, se se recorda bem, aqui, nesta mesma sala lho aconselhei... Mas agora recusar-se a entrar com os seus amigos no poder!...

A voz de Fradinho soava alto, mas a sua indignação era puramente artificial: porque ele sabia – todos na sala sabiam – que Alípio Abranhos não recusaria a pasta! O que começavam a recear era que não lha oferecessem; e os olhares devoravam os grossos ponteiros do relógio, cujo tique-taque parecia a todos bater com uma pressa surpreendente.

De repente, uma carruagem que vinha do lado da Rua do Alecrim, rolou no largo: houve um silêncio grave, uma espera ansiosa; a carruagem trotou na calçada para a Rua de S. Francisco.

Então todos murcharam. Eram quase onze horas. Cada um pensava que àquela hora o ministério devia estar formado, ou, pelo menos, que as negociações se passavam longe, noutras casas, com outros personagens. A Alípio nem lhe davam a importância de o consultar. Fradinho teve a franqueza de mo confessar mais tarde: àquela hora, – às onze – julgou Alípio um pascácio! Positivamente não o tomavam a sério. Palrava bem, mas homem de estado não o consideravam. E, não se contendo, chamou o Doutor – que me referiu – para o vão de uma janela, na sala de jantar:

– Pregam-lhe uma peça... O Guedes nunca teve tenção de lhe dar a pasta. E um homem perdido! ... Aquela passagem com armas e bagagens para a oposição, matou-o! Não dá garantias de lealdade. E uma besta!

Uma carruagem, a meio galope, parou de repente a porta. Fradinho entrou na sala. Havia um silêncio angustioso. A campainha repicou e o padre Augusto precipitou-se, com medo que o criado tivesse adormecido.

Era Guedes Navarro que queria falar com S. Exª!

Daí a pouco entrava o bacharel; vinha dos boatos, da Baixa, mas as fisionomias de todos eram tão particularmente expressivas que ele exclamou logo, adivinhando.

– O homem veio!

– Estão ambos no escritório!

– Hurra! – gritou, agitando o chapéu.

D. Laura, porém, observou com prudência:.

– Nada de cantar vitória... Ninguém sabe... E tentar a Deus! É esperar, é esperar...

Mas não esperaram muito. Sentiram a porta do escritório abrir-se com ruído, e duas vozes, a do Guedes e a do Abranhos, no corredor, falando alto, joviais. Depois a carruagem, em baixo, bateu a trote, e Alípio entrou na sala.

– Então?... – exclamaram todos.

– A Marinha! – disse ele, banhado num riso irreprimível.

Correram para ele. D. Virgínia pendurara-se-lhe ao pescoço, e as senhoras, os homens, procuravam apoderar-se das mãos, da manga do ministro. Ele rebolava dos braços de um para os braços do outro, sufocado, os olhos húmidos, defendendo-se molemente.

– Deixem-no! Deixem-no, que o abafam, credo! – exclamou D. Laura. – Deixem-no!

O Doutor então foi sublime. Aquele homem taciturno soltou uma voz de trombone, e com gestos furiosos, como alucinado:

– Qual deixem-no! E para aqui, é para mim! E todo!

E dava-lhe apertões furiosos, sôfrego dele, querendo sepultá-lo no seio, penetrar-se de S. Exª.

Todos riram. Quiseram saber «como tinha sido», o que dissera o Guedes Navarro. Cercaramno, estendendo as faces banhadas de riso para lhe beber as palavras.

Abranhos foi muito conveniente, muito discreto:

(continua...)

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