Por Eça de Queirós (1878)
- O quê?
- Não te podem fazer feliz!
- Está claro que não! - exclamou a outra. - Mas... - procurou a palavra; não a quis empregardecerto; disse apenas com um tom seco: - Divertem-me!
Calaram-se. Luísa pediu o café.
Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; daí a pouco foram para a sala. - Sabes quem me falou ontem de ti? - disse Leopoldina, indo estender-se no divã, - Quem?
- O Castro.
- Que Castro?
- O de óculos, o banqueiro.
- Ah!
- Muito apaixonado por ti sempre.
Luísa riu.
- Doido, palavra! - afirmou Leopoldina.
A sala estava às escuras, com as janelas abertas; a rua esbatia-se num crepúsculo pardo, um ar lânguido e doce amaciava a noite.
Leopoldina esteve um momento calada; mas o champanhe, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-se mais no divã, numa atitude toda abandonada; pôs-se a falar dele. Era ainda o Fernando, o poeta. Adorava-o.
- Se tu soubesses! - murmurava com um ar de êxtase. - É um amor de rapaz!
A sua voz velada tinha inflexões de uma ternura cálida. Luísa sentia-lhe o hálito e o calor do corpo, quase deitada também, enervada; a sua respiração alta tinha por vezes um tom suspirado; e a certos detalhes mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como de cócegas... Mas passos fortes de botas de tachas subiram a rua, e no candeeiro defronte o gás saltou com um jato vivo. Uma branda claridade pálida penetrou na sala.
Leopoldina ergueu-se logo. - Tinha de ir já, já, ao acender do gás. Estava à espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo às escuras, a pôr o chapéu, buscar a sombrinha. - Tinha-lhe prometido, coitado, não podia faltar. Mas realmente embirrava de ir só. Era tão longe! Se a Juliana pudesse vir acompanhá-la...
- Vai, sim, filha! - disse Luísa.
Ergueu-se preguiçosamente com um grande ai!, foi abrir a porta, e deu de cara com Juliana, na sombra do corredor.
- Credo, mulher, que susto!
- Vinha saber se queriam luz...
- Não. Vá por um xale para acompanhar a senhora D. Leopoldina! Depressa!
Juliana foi correndo.
- E quando apareces tu, Leopoldina? - perguntou Luísa.
Logo que pudesse. Para a semana estava com idéias de ir ao Porto ver a tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz...
A porta abriu-se.
- Quando a senhora quiser... - disse Juliana.
Fizeram grandes adeuses, beijaram-se muito. Luísa disse rindo ao ouvido de Leopoldina: - Sê feliz!
Ficou só. Fechou as janelas, acendeu as velas, começou a passear pela sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a idéia de Leopoldina que ia ver o seu amante! O seu amante!...
Seguia-a mentalmente: caminhava depressa decerto falando com Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta - e que delicioso, que ávido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Também ela amava - e um mais belo, mais fascinante. Por que não tinha vindo?
Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôs-se a cantar baixo, triste, o fado de Leopoldina:
- E por mais longe que esteia
Vejo-o sempre ao pé de mim!...
Mas um sentimento de solidão, de abandono, veio impacientá-la. Que seca, estar ali tão sozinha! Aquela noite cálida, bela e doce, atraía-a, chamava-a para fora, passeios sentimentais, ou para contemplações do céu, num banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. Que vida estúpida, a dela! Oh! Aquele Jorge! Que idéia ir para o Alentejo!
As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champanhe agitava-se no sangue. O relógio do quarto começou lentamente a dar nove horas - e de repente a campainha retiniu.
Teve um sobressalto; não podia ser ainda Juliana! Pôs-se a escutar assustada. Vozes falavam à cancela.
- Minha senhora - veio dizer Joana baixo - é o primo da senhora que se vem despedir...
Abafou um grito, balbuciou:
- Que entre!
Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro franziu-se; Basílio entrou, pálido, com um sorriso fixo.
- Tu partes! - exclamou ela surdamente, precipitando-se para ele.
- Não! - E prendeu-a nos braços. - Não! Imaginei que me não recebias a esta hora, e tomei estepretexto.
Apertou-a contra si, beijou-a; ela deixava, toda abandonada; os seus lábios prendiam-se aos dele. Basílio deitou um olhar rápido, em redor, pela sala, e foi-a levando abraçado, murmurando: - Meu amor! Minha filha! - Mesmo tropeçou na pele de tigre, estendida ao pé do divã.
- Adoro-te!
- Que susto que tive! - suspirou Luísa.
- Tiveste?
Ela não respondeu; ia perdendo a percepção nítida das coisas; sentia-se como adormecer; balbuciou: - Jesus! Não! Não! - Os seus olhos cerraram-se.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.