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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Ela, de uma palidez ebúrnea, com o perfil melancólico de uma madona a que tivessemlevado dos braços o seu bambino, moven do-se molemente entre rendas e cetim com uma ondulação de sereia.

Eu, inteiriçado e embasbacado diante dela, não sabendo como segurar o chapéu e abengala, na mais flagrante e minuciosa osten tação dos meus defeitos e da minha pobreza incaracterizada e burguesa. Ao lado de quanto nela havia ideal, transcendente, etéreo, ia euvendo, enormemente avultado e saliente, quanto o meu as pecto oferecia mais baixo e mais vil:0 casaco comprado ao barato num algibebe; as botas de duas solas torpemente deformadas e or ladas de lama; as calças com umas joelheiras que me dão às per nas naposição vertical o desenho das de um homem que se está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo máximo da mão direita suja de tinta de escrever!Éramos verdadeiramente os antípodas um do outro, postos na mesma latitude pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquelas palavras terríveis que me zuniam nos ouvidos como os prenúncios de uma congestão:«Para o que eu prestar, estou sempre às ordens!»

Não sei que estranha atracção amarrava o meu espírito à lembrança da mulher que euacabava de ver! Não era indefinida simpatia, não era oculto desejo, não era um vago amor. Interessavame detidamente, e o único movimento que encontrava no meu coração — sinceramente o confesso — era o do ódio. Ódio àquela mulher, ódio inexplicável,monstruoso, como aquele que imagino ser o de um enjeitado à sociedade em que nasceu!

A distinção aristocrática, a elegância da raça daquela gentil criatura aviltava-me,enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de rebelião demagógica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma arma proibida, no fundo da sua alma.

Aquela mulher tinha, certamente, um espírito menos culto do que o meu, uma razão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para compensar estas depressões assistia-lhe uma superioridade repugnante, inadmissível: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição delicada, um leito de penas, a infância resguardada nasombra, entre estofos, sobre ta petes, ao som de um piano — isto basta, para que fique ridículo, miserável, desprezível ao pé dela um homem que se criou ao clarão do dia, à luz do Sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e por melodias o roncar das carvalheiras eo gemer dos pinhais!

E entre mim e ela será isto perpetuamente uma barreira.Ela ficará sempre bela, dominativa, sedutora por natureza, instintivamente cativante, querida; amimada, estremecida, den tro da sua zona de aromas, de veludos, de cristais e de luzes!Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e inútil — desgraçado quando não quisertomar-me tão ridículo, e irrisório, quando tiver a veleidade de não querer ser des graçado!...



(continua...)

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