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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

E o que esse Príncipe, nesta tarde, me esfalfou! Farejava com uma curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados dum Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das fendas dum socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.

-Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro.

-É um azinheiro, Jacinto.

Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do Céu, realmente celestial, e dos campos onde cada folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.

Depois, muito gravemente:

-Tu dizes que na natureza não há pensamento...

-Outra vez! Olha que maçada! Eu...

-Mas é pôr estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento! Nós desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita: - que vive na paz dum sonho vago e nada apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão de Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?

-Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento de S Bruno, ou Ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de certos Jacintos... E também me parece que andamos léguas. Estou derreado.

E que fome!

-Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos espera...

Bravo! Quem te cozinha?

-Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás de ver a canja! Hás de ver a cabidela! Ela é horrenda, quase anã, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que paladar! Que gênio!

Com efeito! Horácio dedicara uma ode àquele cabrito assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho do Melchior, e a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da terra, e aquela doçura da noite de Junho, que pelas janelas abertas nos envolveu no seu veludo negro, tão mole e tão consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o café, caí numa cadeira de verga, na mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delícia.

Depois, com uma recordação, limpando o café do pêlo dos bigodes:

-Ó Jacinto, e quando nós andávamos pôr Paris com o Pessimismo às costas, a gemer que tudo era ilusão e dor?

O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:

-Ó! Que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E a maior besta eu, que o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia – continuava ele, remexendo a chávena – o Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o caráter pungente duma injustiça especial, cometida contra o sofredor pôr um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga, quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho: - porque nos sentimos escolhidos e destacados para a infelicidade, podendo, como ele, Ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo – se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca dum Inverno especial, organizado nos Céus para o envolver a ele unicamente – enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na luminosa benignidade duma Primavera?

-Com efeito – murmurei eu – esse sujeito teria imensa razão para urrar...

(continua...)

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