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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Então?... Levanta, vamos para a sala, que está mais fresco. Não sê criança, vamos...

— Sou uma desgraçada, disse Maria enxugando os olhos com força.

— Que desgraçada o quê, estás feito criança...

Isso acontece a todo o mundo, criatura. Vamos, vamos para a sala. Já viste o meu álbum?

Maria levantou-se devagar, preguiçosamente, com as faces escarlates, as pestanas úmidas, assoando-se; e arrependida:

— Não, fiquemos aqui mesmo; depois se toca. Não foi nada — um nervoso...

— Bem, mas não te ponhas a choramingar por aí, como uma tola. Tu sabes, a família do Zuza não quer o casamento, quem sabe se o rapaz foi obrigado a embarcar à última hora? Espera cartas, se ele não te escrever, então sim, podes ficar certa de que não te ama.

Tornaram a sentar-se.

A criada, alta como um pau-de-sebo, veio saber da Sra. D. Lídia “se a sopa era de macarrão ou de arroz”.

— De macarrão mesmo, Tomázia, faça de macarrão, mas faça uma sopa gostosa, ouviu?

E para a amiga.

— Não imaginas quanto aborreço a cozinha. Há dias em que não ponho lá os pés. Felizmente o Loureiro arranjou uma boa criada, que até já foi cozinheira do Dr. Paula Souza, da Estrada de Ferro. É assim como viste, seca e ríspida, mas uma excelente criada. Faz tudo a meu gosto.

— Mas, então o Zuza embarcou, hein? tornou Maria voltando à conversa.

— Não falemos mais nisto. Estás hoje muito sentimental e eu não quero que passes mal o resto do dia em minha casa, sabes? Não falemos mais nisto.

— Mas diz-me... aquilo foi uma tolice... diz-me, não o viste mais?

— Não. O José Pereira é que está muito nosso amigo, sabes? Tem vindo aqui duas vezes nesta semana. E que amabilidades, menina, que delicadeza! Ofereceu-se para apresentar o Loureiro ao presidente da Província, mandou-nos outro dia um camarote para o teatro...

— E tu, como passas a nova vida?

— Perfeitamente. Desejava antes morar na cidade, mas o Loureiro é muito impertinente, diz que prefere isto — paciência. Agora quando vierem os filhos, isso então... Por enquanto estou muito satisfeita. Um bocado triste isto aqui no Benfica, mas... vai-se passando. É verdade, precisas vir passar uns dias comigo, estás muito magra; o ar aqui é melhor que na cidade. Tens ido à Escola?

— À Escola? qual! Passei oito dias em casa, como uma freira, sem ir a parte alguma. Creio que não irei mais àquilo.

— Eu no teu caso faria o mesmo. Agora então, que estou casada, olha...Fez um gesto com as mãos.

— ... bananas, não estou para suportar desaforos daquela canalha. Porque tudo aquilo é uma canalha, menina. Fazes muito bem não pondo os pés naquela feira de reputações. As raparigas ali aprendem a ser falsas e imorais. Conheço muito o tal Sr. Berredo, o tal Sr. Padre Lima e mais os outros todos. O próprio diretor... eu cá sei...

Maria estava mais consolada ante a solicitude da amiga. Achava-a mais amável e mais expansiva.

Foram para a sala de visitas de braço trançado, nas cinturas, e Lídia cantou ao piano Non m’amava, a velha romanza sentimental, que encheu de lágrimas os olhos de Maria.

E os dias passavam uns após outros, longos, intermináveis, como uma repetição monótona que faz mal aos nervos.

Vieram as festas, o Natal e o Ano-Bom.

Maria do Carmo cada vez mais magra, sentindo-se definhar dia a dia, descrente de tudo, tinha agora uma certeza cruel que a torturava barbaramente, a certeza de que estava para ser mãe, de que muito breve o seu nome estaria completamente desmoralizado. Sentia bulir dentro de si uma coisa estranha, que lhe incomodava como uma perseguição, e mais de uma vez nos seus momentos de grande desânimo, atravessara-lhe a mente a idéia sinistra do suicídio. Sim, preferia matar-se a assistir às exéquias de sua honra na praça pública, em todas as ruas da cidade, em todas as bocas. Estava irremediavelmente perdida, não tinha pai nem mãe, nem alguém que lhe fosse sincero no mundo, pois bem, acabar-se-ia de uma vez, sem ter que dar satisfação a ninguém por isso. Era um pecado, mas não era uma vergonha, porque não teria que corar nunca diante da sociedade, como uma criminosa, como uma culpada. Não, mil vezes não! Outra, que não ela, preferisse arrastar uma existência vergonhosa, a morrer fosse como fosse.

Uma ocasião esteve prestes a ingerir uma dose de láudano, mas faltou-lhe coragem. Começou a imaginar mil coisas. Via-se morta, dentro de um caixão azul, de mãos cruzadas sobre o peito, numa sala onde havia gente chorando e um crucifixo à cabeceira entre velas de cera que ardiam lugubremente. Que horror!

Recuou espantada fazendo em pedaços o vidro de veneno.

(continua...)

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