Por Inglês de Sousa (1891)
Era assim na meninice, na fazenda natal do Igarapé-mirim, onde para fugir à presença tristonha e chorosa da mãe e às brutalidades do pai, refugiava-se no campo, nas matas, na solidão do rio, só, sem companheiro, face a face com a natureza. Desse viver ao mesmo tempo ardente e tranqüilo o fora arrancar a solicitude do padrinho, para o meter consigo na galeota de negócio e conduzi-lo ao Pará, obrigando-o a viver entre gente estranha, constrangendo-lhe a índole expansiva, sopitando o ardor do temperamento campônio para reformar as idéias e os sentimentos, adquirir nova concepção do mundo e da vida e formar um ideal novo de espiritualidade e meditação, contra o qual se rebelara embalde o sangue de Pedro de Morais que lhe corria nas veias.
Com que dor de coração se despedira da fazenda!
A mãe debulhada em lágrimas, envergonhada e tímida, transmitira-lhe no último beijo o vago terror das coisas novas com que se ia enfrentar. O pai, indiferente e grosseiro, insinuara-lhe o desprezo dos homens e a filosofia do gozo, acompanhando-o até a galeota com os olhos enxutos, os lábios sardônicos, a palavra cética e dura. A ama de leite, a boa mãe-preta que o criara e protegera, na fraqueza da mãe desmoralizada, contra os irmãos legítimos e naturais, dando-lhe o apoio da sua influência sobre a domesticidade da fazenda, abraçara-o ao embarcar, pondo-lhe ao pescoço um bentinho milagroso e dando-lhe conselhos para evitar os diversos males que por arte diabólica afligem a pobre humanidade.
Quando ficara só com o padrinho e os remadores na galeota de negócio, dera-lhe uma grande dor de perder o seu arco de caça, as suas belas flechas empenadas, o cavalo de campo, a corda de laçar bois, o belo chapéu de couro com que o haviam presenteado no seu último aniversário natalício. Que funda saudade daquela vida livre de campônio desocupado, enquanto a galeota singrava as águas ao som cadenciado dos remos! E depois, quando chegara ao Pará, ao cair da noite, deslumbrado pelos centenares de luzes da grande cidade ativa, quando pernoitara na casa do Filipe do Ver-o-peso, estranhando a cama, a linguagem, os hábitos todos, quando entrara afinal no Seminário, numa grande sala branca e nua, à hora do almoço, tropeçando no limiar com os seus sapatos grossos de Igarapé-mirim, e provocando o riso zombeteiro de algumas dezenas de rapazes famintos e hostis, a negra saudade da sua vida passada o acompanhava, fazendo-o alheio a tudo que o cercava. No correr dos tempos, na marcha gradativa do seu espírito, nas horas de desalento, quando a atenção cansada do agro labor dos estudos repousava na contemplação de um cantinho qualquer da natureza, entrevisto através das vidraças poeirentas do Seminário, a pungente saudade o torturava ainda e o perseguia sempre, no intervalo de projetos ambiciosos, no fim das meditações filosóficas e dos arroubos de entusiasmo místico que entrecortavam a sua existência, toda feita de lutas íntimas e de ansiedades dolorosas. E agora que soube os ardores da mocidade impetuosa passara a calma da reflexão e das conveniências, agora que a realidade desconsoladora e fria devera ter sopitado aquele amor invencível de um passado morto, e a idade, a posição, o hábito que vestia e o destino que a si mesmo traçara, deviam trazer-lhe o completo esquecimento das sensações da infância, voltavam as recordações de chofre, e os quadros da meninice, reaparecendo com todo o brilho e frescura dos tempos idos, de novo e com maior força ainda, evocavam idéias, sentimentos e sensações que em tropel confundiam-se no seu cérebro, e davam-lhe um apetite monstruoso de ar, de gozo, de liberdade sem peias, pondo-o numa espécie de demência, como se um perfume sutil o entontecesse...
O dia ia passando. O ruído cadenciado dos remos, durante horas a fio, embalava o sonho de padre Antônio de Morais. O sol do Amazonas punha cintilações de cobre polido na superfície do rio e aquecia a igarité, cuja tolda de palha dava estalidos secos ao leve balanço que o movimento lhe imprimia.
Macário acordou com a luz do sol a requeimar-lhe o rosto. Mal embarcado adormecera, reatando o sono interrompido, mas agora, tendo completado a sua conta, despertava bem disposto, e achando-se deitado sob a tolda da igarité, vendo a batina do vigário caindo da coberta, e pelas costas as camisas de riscado dos dois remeiros, não pode deixar de pensar com um sorriso de malícia no modo por que a sua diligência conseguira pôr em caminho de realização o sonho extravagante de padre Antônio de Morais.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.