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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Ângelo pôs-se a caminho, logo depois que recebeu o despacho oficial, e depois de longa jornada a cavalo, alcançou uma das últimas estações da estrada de ferro Recife a São Francisco. Chegou àquela cidade na mesma tarde. Entre o pedido de licença e a chegada, haviam decorrido cerca e três meses.

Quanto lhe custou o trajeto da estação das Cinco Pontas à estrada João de Barros! Tinha o coração em aflitiva e doce ansiedade. A carruagem não rodava, voava por ordem sua, o plaustro das ninfas antigas não era mais veloz. E ele tinha razão de querer vencer a distância com a rapidez do pensamento; estava quase alucinado. Havia perto de seis meses que não sabia notícia de Maurícia, que durante esse tempo tivera quase exclusivo domínio em suas idéias. Enfim, ao escurecer, o carro parou à porta do sítio de D. Rosalina. Ângelo, tendo na mão a bolsa de viagem, saltou, quando o carro ainda não estava parado, e transpôs correndo a soleira do portão. Arbustos, que ele deixara pequenos, estavam grandes. Madressilvas novas, resedás, jasmins-laranjas, que haviam sido plantados em sua ausência, formavam latadas sombrias e muitas espessas nas proximidades da porta da entrada. Os cajueiros ostentando os primeiros frutos daquele ano, recendiam aromas agradáveis.

— Reconheço os aromas do cajueiro - disse ele - entrando. Como são gratos os perfumes da casa paterna!

Uma afilhada de D. Matilde, por nome Joana, que ao pé de uma das janelas, se aproveitava das últimas claridades do dia para concluir a sua tarefa em uma almofada de renda, correu como louca pelo corredor a dentro, gritando:

— Dindinha, Dindinha, aqui está seu Ângelo!

Foi um reboliço, uma revolução, um deus-nos-acuda na casa de D. Rosalina. Por alguns momentos, pareceu que o mundo vinha abaixo. mas não estava longe do prazer o desgosto, da esperança o desespero para o infeliz homem de letras.

— Dá-me notícias de D. Maurícia, minha mãe? — perguntou Ângelo.

D. Matilde hesitou. Seu rosto, por onde discorria a aurora boreal de uma satisfação inesperada e inefável, seu rosto, que, sem falar, parecia dizer mil prazeres interiores, vestiu repentinamente a sombra do luto íntimo. A boca, que estava dizendo miríada de emoções, emudeceu.

A mudança súbita, que Ângelo notou imediatamente, aguçou a sua curiosidade, redobrou a sua angústia.

— Por que se cala, minha mãe? — inquiriu ele, mal disfarçando a contrariedade. Não me oculte nada. Li no jornal que o marido tinha morrido. Antes de tudo, diga-me se o jornal falou a verdade ou mentiu.

— Falou a verdade, Ângelo - respondeu D. Matilde. Assim não tivesse D.

Maurícia...

— Não tivesse o quê, minha mãe?

—... morrido também, Ângelo!

— O quê? O que, minha mãe? - exclamou o bacharel.

— Meu Deus, meu Deus! - acudiu D. Matilde. Não te impressiones com a vontade de Deus, meu filho, por mais dolorosa que te pareça.

Durante alguns momentos, Ângelo não pode dizer uma palavra sequer. Véu de profunda noite descera como mortalha negra sobre o seu espírito, onde alvejavam antes roupas de noivado querido. Pôs as mãos na cabeça e, cravados os cotovelos na mesa, que tinha diante de si, no quarto, entregou-se à acerba dor que o tomara no meio do mais intenso prazer que sonhara. Era a segunda vez que se lhe deparava na vida o espetáculo da morte de uma pessoa cara. As lágrimas em borbotões começaram a cair-lhe pelas faces e a formar uma poça cristalina, onde se refletia a luz já então acesa.

Vendo-o chorar, D. Matilde entrou a chorar, também. E por esta forma se trocaram sorrisos em lágrimas, doces comoções por aflições pungentes.

Horas depois, Ângelo deitado no sofazinho de vime do seu aposento, tendo a cabeça sobre as pernas de D. Matilde, ouviu desta a narração dos últimos dias de vida de Maurícia. O que a mãe contou ao filho pode resumir-se no seguinte:

Certa manhã, Maurícia sentira-se sem forças para levantar-se da cama. Passara a noite prostrada e febril. Nas faces, lívida cor substituíra as mimosas tintas esparzidas aí meses antes pelo pincel do artista insigne que se chama saúde, ou antes tranqüilidade espiritual. O vigor, e com ele a vida fugiam espavoridos.

A doença trouxe grandes sustos à família. Em conversação com a mulher, Albuquerque, que já tinha notado dias atrás os progressos da decadência física dessa criatura robusta, que os sofrimentos mais cruéis nunca tinham podido vencer, e que, ao contrário, de todos triunfara.

Virgínia muitas vezes surpreendera a mãe chorando em silêncio. Empregara todo o esforço para saber a origem dessas lágrimas, que levavam dor mortal diretamente ao seu coração; mas nem de longe Maurícia dera a entender a verdadeira causa delas. Uma vez disse à filha, depois de fugir por muitos modos às suas indagações.

— Não te assustes com o meu pranto, Virgínia. Não és tu feliz? A tua felicidade não vai aumentar com o nascimento do primeiro fruto do teu amor? Deixame chorar em silêncio; choro sem causa; as minhas lágrimas provêm de uma melancolia que eu não compreendo e não posso explicar.

(continua...)

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