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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Estás ouvindo? Olha lá o que perdemos. Eu porém não quero que ninguém me acompanhe contra a vontade. Nunca pensei que não aceitasses a minha proposta. Quando te vi passar de tarde para esta banda, eu logo conheci que vinhas ao sitio das carvoeiras, e disse comigo: ‘Vou falar com Germano para ver se ele quer, a troco da sua liberdade, prestar-nos um servicinho. Eu estava na mente de que havia de te chamar para nós; mas, como não queres, nem por isso te farei mal. O que eu disse há pouco foi gracejo. De ti, pobre negro cativo, o que eu tenho não é ódio, é pena. E adeus. Perdi meu tempo e minhas razões. De outra feita talvez a coisa já não seja assim’.

- Eu também me vou embora, que já é tarde; disse Germano. Adeus, tio Moçambique. Com Deus amanheça, tia Quiteria.

- Vai-te embora daí que tu não prestas senão para chotear de jaqueta de galão atrás de teu senhor, abrir-lhe as porteiras para ele passar, e limpar as botas dele quando vêm cheias de lama – respondeu Moçambique.

- Você também de que serve? Perguntou Germano despeitado. Não é também escravo dele, como eu sou? Não é mais que a gente se levantar contra seu senhor! Mestre Moçambique, sabe que mais? Vá contar a outro as suas valentias, que eu nelas não creio, e tanto caso faço delas como dos latidos de cachorro velho, carregado de rabuje, que já não morde, porque nem dentes tem.

- Está bom, está bom, vai-te embora, meu pimpão – disse o Moçambique. Amanhã, tu me dirás quem é o cachorro velho que não morde. Talvez que a esta hora tu estejas na ponta da faca de Pedro de Lima, e eu na mata virgem.

Germano deu o andar para a vereda, onde já entrara Pedro de Lima, que saíra antes dele.

Adiante, debaixo de um cajueiro, um vulto estava parado. Era o matuto.

- Eu bem te endendi, Germano. E para saber todo o teu pensamento, aqui fiquei à tua espera.

- Quando é que vão atacar o engenho?

- Para te falar verdade, eu não sei bem quando há de ser o ataque.

Mas vamos cá saber uma coisa, seu Pedro de Lima: como posso Ter eu certeza de que serei livre se fizer o que vosmecê propõe?

Não há duvida que tudo há de ser conforme te digo. Pois queres melhor certeza do que a nossa vitoria? Olha cá. Se vencermos a nobreza, o governo passará a ser outra vez dos mascates, e passando a ser dos mascates o novo governo, está bem visto que todos aqueles escravos que nos tiverem ajudado a dar com o governo da nobreza em terra, terão em recompensa a sua liberdade.

- E se, em lugar de darem a eles a liberdade, os mascates ficarem com os negros na escravidão, não virá tudo a dar no mesmo?

- Mas se eu te afianço que tu pelo menos ganharás a tua alforria, que mais garantia queres do que minha palavra? Não duvides da promessa. Ajuda-nos a dar um ensino de mestre a esses senhores soberbões, e eu te asseguro que não te hás de arrepender. Pois sim, seu Pedro. Eu, como confio na sua palavra, estarei pronto, quando chegar o momento, a molhar as armas. Mas, olhe: todo o meu serviço não passará disso, porque eu não quero historias comigo. - - Nem eu exijo outro serviço além deste. Ficarei com ele muito satisfeito, e ele só será bastante para te forrares. Então, fica assentado isso mesmo, não é verdade?

Isso mesmo. E eu vou já dizer ao Tunda-Cumbe a tua promessa, que é para não haver duvida. Os dois tinham chegado à beira da estrada.

- Ah! Esqueci-me do saco de batatas que Moçambique mandava lá para casa. Volto a buscá-lo.

Separaram-se, Germano para tornar, como disse, à palhoça dos negros, Pedro de Lima para tomar à direita a direção da mata.

Quando eles desapareceram, saiu do mato um vulto com passo sorrateiro e cauteloso. Era Lourenço, que por entre o arvoredo os havia seguido, amparado pelas folhagens, quase ombro a ombro com eles, sem que o vissem. Ele entretanto, que também os não vira, ouvira, sem perder uma palavra sequer, toda a conversa que tinham tido os dois conjurados desde a palhoça até a beira do caminho.

Marcelina estava na porta da casa.

Vendo o filho com a espingarda, as primeiras palavras que para ele teve foram estas:

- Que anda fazendo pelo mato a esta hora, Lourenço? Nem sabes que susto acabo de ter.

- Que foi que aconteceu, minha mãe?

- Passou por aqui mesmo, há instantinhos, um homem que, depois de passar, ficou ali de pé a olhar para cá e a fazer jeito de quem queria saber ou ouvir alguma coisa de cá de casa. Sabe quem era? Pedro de Lima.

- Pedro de Lima, aquele malvado?! Virgem-da-Conceição. Entra Lourenço, que quero fechar logo a porta.

Ele que anda por aqui a esta hora, fazendo bem não é. Quer saber o que estava fazendo o cabra? - Fala baixo, que ele ainda pode estar por ai. Mas o que foi?

(continua...)

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