Por Franklin Távora (1876)
Marcolino por um triz não caiu fulminado de espanto, sobressalto e satisfação ao mesmo tempo.
Tinha reconhecido nesse homem o Cabeleira.
CAPÍTULO XVI
A fome obrigara o bandido a deixar o mato, como obriga as aves a emigrarem, e as feras cervais a deixarem seus covis.
Havia cinco dias que ele partira de Santo Antão, e três que não comia senão os escassos frutos que lhe dava a macaibeira, o ananaseiro bravio, o jatobá do deserto.
Uma tarde em que a fome e a fadiga o tinham prostrado, viu dentre umas touceiras de taquara onde se recolhera para cobrar animo, um cavaleiro que, havendo atravessado o rio, de força tinha de passar a poucos passos dele, em um cotovelo formado pela picada.
O cavaleiro era um velho e parecia-se mais com uma múmia do que com um ente vivo.
Tinha a pele grudada nos ossos, e seu corpo apresentava ângulos e retas de dureza escultural.
O cavalo não tinha melhor parecer do que seu senhor. Era uma armação óssea informe, pesada, cadavérica e triste.
Trazia o velho tão caída a cabeça para diante, que quase chegava com o queixo recurvado ao cabeçote da cangalha. O cavalo, parecendo ceder à mesma lei que o cavaleiro, por vezes varria com os beiços coriáceos o pó do caminho. Essa lei era a lei da fome.
"Este velho", pensou o Cabeleira, "traz pelo menos farinha nos caçuás. Vou tomar-lhe para mim, e se ele não quiser entregar-me a sua carga, corto-lhe a garganta."
Empunhou o pedaço da faca, única arma que lhe restava do terrível cangaço de outrora, e quando o velho confrontou com ele, saltou-lhe ao cabresto do cavalo. Este parou de muito boa vontade, enquanto seu dono, sem se mostrar aterrado nem sobressaltado, disse ao bandido:
— Guarde-o Deus, meu senhor — saudação que até bem pouco tempo se ouvia no sertão.
Quando estava para fazer a terrível intimação, sentiu o Cabeleira faltar-lhe força para suster o cabresto, tremeram-lhe as pernas, vacilaram-lhe os pés. Seus olhos tinham dado com a imagem de Luísa, de joelhos na beira do caminho com as mãos postas, os olhos suplicantes, tristes e chorosos, voltados para ele. Pareceu-lhe até ouvir as seguintes palavras:
— Não o mates, Cabeleira.
Esta ilusão era efeito da sobreexcitação nervosa, produzida em todo o seu organismo pela falta de alimentos, pela dor moral que lhe causara o transito da moça, ou talvez pela profunda revolução que antes de ter ela falecido havia obrado nos seus instintos, idéias, e hábitos, o sentimento destinado a redimi-lo do erro, e do crime — o amor.
Foi tão profundo e violento o abalo que experimentou ao ver aquela doce efígie (a qual ele julgava ter desaparecido para sempre de seus olhos ), que irresistivelmente lhe escaparam dos lábios estas palavras:
— Não o matarei, meu amor; não o matarei.
Mas não foram somente as palavras que lhe escaparam violentamente dos lábios; dos olhos lhe saltaram também lágrimas espontâneas, que ele não pôde reprimir.
E como para dar plena satisfação àquela doce imagem que se atravessava diante dele no momento em que um crime estava a ser cometido por sua mão, Cabeleira atirou dentro de uma grota que ficava do outro lado da picada o resto da arma de que estivera pendente a vida do pobre velho.
Este, acordando novamente do profundo abatimento que pesava sobre todos os seus membros, dirigiu outra vez a palavra ao bandido:
— Camarada, estou pronto para servi-lo.
— Há três dias que não boto na minha boca um punhado de farinha — disse José. — Traz você aí alguma coisa que me queira dar para comer ?
— É seguramente meio-dia, meu senhor —m disse o velho erguendo a custo os olhos ao sol para se certificar da hora. — Amanhã pela manhã faz quatro dias que este corpo velho, que o senhor está vendo, não sabe o que é comer. Dou a Deus por testemunha da minha verdade.
— E que é que traz dentro destes caçuás ? — perguntou-lhe o Cabeleira.
— Pode ver o que trago. Nada. Tinha uma filha solteira, outra viúva e três netinhos. Veio a peste e levou-me as duas filhas em menos de oito dias. Não tendo recurso nenhum para acudir às minhas necessidades, saí a pedir. Fui à casa de meu compadre, que mora na Ladeira Grande; o compadre tinha morrido das bexigas, e a mulher estava para entregar a alma a Deus; o gadinho que possuía desaparecera com a seca; alguma criação que ficara no terreiro tinha sido comida pelos magotes de gente, que vêm aí em retirada, caindo aqui, morrendo acolá de fome, só de fome. Achei no pátio da propriedade este cavalo velho, que me vai arrastando até a casa. Sabe Deus se lá chegarei, ou se não ficarei no caminho, sem ter visto meus pobres netos ainda uma vez antes de morrer.
— Está bom, meu velho; vá seguindo seu caminho. Você é mais necessitado do que eu.
— Não da graça de Deus, senhor — disse o velho.
O Cabeleira entrou de novo no tabocal.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.