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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha! gritou ela, com mau modo, e sem se importar com Filipe.

— Está bem, disse este, saindo: eu não os posso aturar.

E depois acrescentou sorrindo-se:

Finque-se aí, sr. Hércules, aos pés da sua bela Onfale!

Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto.

Já lhe tenho repetido três vezes que não é assim que se pega na agulha. Ora, minha senhora...

— Ora, minha senhora!... Ora, minha senhora! Eu não sou sua senhora, sou sua mestra.

Minha bela mestra!

Digo-lhe que já me vai faltando a paciência. O senhor não atenta no que faz!... Já tem quatro vezes rebentado a linha e é a décima segunda que lhe cai o dedal.

— Não se exaspere, minha bela mestra, eu o vou apanhar e não cairá mais nunca.

Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de d. Carolina; ora, o dedal estava bem junto dos pés dela e o aprendiz, ao apanhá-lo, tocou, ninguém sabe se de propósito, com seus dedos em um daqueles delicados pezinhos: esse contato fez mal; a menina estremeceu toda. Augusto olhou-a admirado, os olhos de ambos se encontraram e os olhos de ambos tinham fogo. Um momento se passou, e o sossego se restabeleceu.

— Já não posso mais! exclamou a bela mestra; rebentou o senhor pela quinta vez a linha; não dá um ponto que preste; não há outro remédio...

E, dizendo isto, lançou uma das mãos à orelha do aprendiz, que de súbito deu um grito e acudiu com as suas. Ora, essas mãos se encontraram e nesse ensejo os dedos da bela mestra foram docemente apertados pela mão do aprendiz. Novo fogo de olhares; que aproveitável lição!

— Menina, tenha modo!... O sr. Augusto não é criança, exclamou a sra. d. Ana, que a dez passos cosia, e que só podia ver a exterioridade do que passava entre a bela mestra e o aprendiz.

A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil vezes se repetiu a mesma cena do encontro das mãos; d. Carolina não conseguiu puxar uma só vez a orelha do estudante e o aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar os dedos da bela mestra. Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição um nome marcado pela sua mão, e tudo foi às mil maravilhas.

O resto do dia se passou como se havia passado o seu princípio para Augusto e d. Carolina.

Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios, o amor lhes tinha ensinado outros, eram: "meu aprendiz", e "minha bela mestra".

A madrugada seguinte foi triste, porque presidiu às despedidas do aprendiz e sua bela mestra, mas ainda foi bem doce, porque ambos meigamente se disseram:

— Até domingo!

CAPÍTULO XXI

2o. domingo: brincando com bonecas

Raiou o belo dia, que seguiu a sete outros, passados entre sonhos, saudades e esperanças. Augusto está viajando, e já não é mais aquele mancebo cheio de dúvidas e temores da semana passada; é um amante que acredita ser amado e que vai, radiante de esperanças, levar à sua bela mestra a lição de marca que lhe foi passada.

O prognóstico de d. Carolina, na gruta encantada, vai-se verificando: Augusto está completamente esquecido da aposta que fez e do camafeu que outrora deu à sua mulher. Um bonito rosto moreninho fez olvidar todos esses episódios da vida do estudante. O. Carolina triunfa, e seu orgulho de despotazinha de quantos corações conhece deveria estar altaneiro, se ela não amasse também.

Como da primeira vez, Augusto vê o dia amanhecer-lhe no mar; e, como na passada viagem, avista sobre o rochedo o objeto branco, que vai crescendo mais e mais, à medida que seu batelão se aproxima, até que distintamente conhece nele a elegante figura de uma mulher, bela por força; mas desta vez, não como da outra, essa figura se demora sobre o rochedo, não desaparece como um sonho, é uma bonita realidade: é d. Carolina que só desce dele para ir receber o feliz estudante que acaba de desembarcar.

— Minha bela mestra!

— Meu aprendiz!... Já sei que traz o nome bem marcado.

Oh! Sempre precisarei que me queira puxar as orelhas.

— Não, eu não farei tal na lição de hoje.

— E se eu merecer?

— Talvez.

— Então errarei toda a lição.

Eles se sorriam, mas Filipe acaba de chegar e todos três vão pela avenida se dirigindo à casa.



(continua...)

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