Por Eça de Queirós (1925)
Mas apesar do calor canicular, sentia-se todo frio, todo murcho. Que significavam aquela reserva, aquela secura de Navarro? Esquecera ele os compromissos tomados? Tentava traílo?
Uma cólera vaga grasnou-lhe na alma. Se assim fosse, que vingança medonha tiraria! Ele conhecia bem os Nacionais, os seus podres, e se lhe «passassem o pé», fundaria, com o dote da Virgininha, um jornal onde esmagaria o partido com a revelação indignada dos seus escândalos e da sua corrupção. Seguiu então pelo cemitério, com o olhar vigilante, todos os movimentos de Guedes Navarro. Isto tranquilizou-o um pouco: Guedes Navarro conservava-se taciturno, reservado, carregado o rosto numa consternação bem educada.
Por isso se compreende que nessa noite, apenas soube que Navarro fora chamado ao Paço, sofresse os assaltos terríveis e contraditórios da esperança e da suspeita.
Fradinho muitas vezes me afirmou que nessa noite a face de Alípio Abranhos estava de um lívido térreo. Queria, diante dos amigos, mostrar serenidade, jovialidade mesmo: mas não podia permanecer no mesmo lugar; tinha, segundo as alternativas de esperança ou de desalento, risos bruscos, joviais, ou um abatimento que lhe punha na face uma sombra, uma moleza de vencido.
Na sala, havia um embaraço manifesto. Ninguém falava na coisa: – manifestar esperanças, poderia tornar o desapontamento mais amargo; mostrar desalento seria incivil. Faziam-se, de repente, silêncios desagradáveis: eram os momentos em que cada um pensava nas suas próprias esperanças: a gorda D. Amália na sua pensão, a macerada D. Joana no emprego do sobrinho, padre Augusto no canonicato, o Doutor em postas vagas...
O bacharel Tavares oferecera-se para ir pela Baixa, ao Martinho, ao Central, coleccionar os boatos, mas voltara ofegante, limpando o suor do pescoço, a dizer que se.77 não sabia nada: o Guedes ainda devia estar para o Paço.
Eram então nove horas e meia. Aquela demora no Paço parecia inexplicável. Fradinho, porém, que era o mais animado, lembrou que seria necessário, pelo menos, hora e meia para ir à Ajuda. Padre Augusto protestou:
– Hora e meia?... Três quartos de hora, se me faz favor. Foi para o Paço às sete, chegou às oito menos um quarto; um quarto de hora para conferenciar com El-Rei; voltou às oito horas, chegou a Lisboa às oito e três quartos. São nove e meia: há três quartos de hora que está em Lisboa.
Aquele cálculo consternou as faces.
– Mas depende do cocheiro – disse o Conselheiro Andrade.
– Mesmo com um batedor – observou o bacharel – não se vai em menos de uma hora.
E como aquilo – o tempo que se levava até Belém – era um assunto, apoderaram-se dele sofregamente. Disfarçava as preocupações, evitava os silêncios vazios, tão desagradáveis. Fradinho contou logo que em questões de velocidade, ele, Fradinho, fora a Sintra em hora e meia. Era bater, hem?
Mas o bacharel que em novo fadistara, tinha histórias bem superiores de tipóias velozes: que lhes parecia: em três horas ir a Sintra, e de Sintra a Cascais?
– Impossível! Impossível!
– Ó minhas senhoras, impossível? – bradou o bacharel. – Fi-lo eu. Posso trazer-lhes aqui o cocheiro, o próprio, um picado das bexigas!
– Sem descansar a parelha?
– Sem descansar a parelha!
– Histórias!
Ninguém queria irritar aquele excelente moço, mas contrariavam-no para produzir discussão, palavras – e, com efeito, o bacharel, tomado de um súbito fluxo labial, prodigalizou histórias de velocidades maiores. Estava encantado de se sentir o centro da conversa; falava, dando puxadelas aos punhos para produzir efeitos. No Porto, tinha ido à Foz em meia hora; e, exaltado, contou outros feitos, só comparáveis à velocidade de um trem expresso, ou da electricidade atmosférica!
O relógio da sala, porém, bateu as dez horas, e aquele timbre melancólico despertou as inquietações: ninguém contradisse o bacharel, e o silêncio pesou, mais angustioso.
A bela Fradinho, então, tentou o piano: todos pareceram escutar com uma atenção tão diletante, que D. Luísa, que ao princípio só fora tocar para preencher o silêncio, animando-se, estimulada, fez correr sobre o teclado os dedos ágeis onde reluziam os anéis com que, por amor dela, se arruinava o advogado.
Mas eram dez e vinte. Segundo ele próprio me contou depois, Alípio Abranhos esforçava-se em considerar que, naturalmente, Guedes Navarro, à volta do Paço, fora primeiro falar com outros colegas. Porém essa hipótese não era suficiente para o calmar. Então não se conteve, foi perguntar aos criados se era certo que não tinham ouvido tocar à campainha; mas encontrando-os na cozinha, palrando alto, enfureceu-se: que barulho era aquele? Que pouca vergonha! Podiam vir vinte pessoas procurá-lo, que não era possível ouvir bater à porta.
A ideia de que Guedes Navarro podia ter vindo, tocando em vão, e, despeitado, tivesse ido bater a outra porta, aterrou-o. Bradou para os criados, tratando-os por alarves:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.