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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

E estava convencida que havia de adorar a roleta.

- Ah! - exclamou. - Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para homem! O que eu faria!

Levantou-se, foi-se deixar cair muito languidamente na voltaire, ao pé da janela. A tarde descia serenamente; por trás das casas, para lá dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amareladas, orladas de cores sangüíneas ou de tons alaranjados.

E voltando-lhe a mesma idéia de ação, de independência:

- Um homem pode fazer tudo! Nada lhe fica mal! Pode viajar, correr aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito...

O pior é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!...

- É um convento, isto! - murmurou Leopoldina. - Não tens má prisão, minha filha!

Luísa não respondeu; tinha encostado a cabeça à mão: e com o olhar vago, como continuando alguma idéia.

- São tolices, no fim, andar, viajar! A única coisa neste mundo é a gente estar na sua casa, como seu homem, um filho ou dois...

Leopoldina deu um salto na voltaire. Filhos! Credo, que nem falasse em semelhante coisa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter!

- Que horror! - exclamou com convicção. - O incômodo todo o tempo que se está!... Asdespesas! Os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer... Uma mulher com filhos está inútil para tudo, está atada de pés e mãos! Não há prazer na vida. E estar ali a aturá-los... Credo! Eu? Que Deus não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com a velha da Travessa da Palha!

- Que velha? - perguntou Luísa.

Leopoldina explicou. Luísa achava uma infâmia. A outra encolheu os ombros, acrescentou:

- E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se; não há beleza de corpo que resista.Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a D. Felicidade, enfim!... Mas quando se é direitinha e arranjadinha!... Nada, minha rica! Embaraços não faltam!

Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio tocar o final da Traviata; ia escurecendo; já as verduras dos quintais tinham uma igual cor parda; e as casas para além esbatiam-se na sombra.

A Traviata lembrou a Luísa a Dama das camélias; falaram do romance; recordaram episódios...

- Que paixão que eu tive por Armando em rapariga! - disse Leopoldina.

- E eu foi por D'Artagnan - exclamou ingenuamente Luísa.

Riram muito.

- Começamos cedo - observou Leopoldina. - Dá-me uma gotinha mais.

Bebeu, pousou o cálice - e encolhendo os ombros:

- Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze anos já a gente vai na sua quarta paixão.Todas são mulheres, todas sentem o mesmo! - E batendo o compasso com o pé, cantou, no tom do fado:

- O amor é uma doença

Que costuma andar no ar;

Só d'ir à janela às vezes

S'apanha a febre d'amar!

- Estou hoje com uma telha! - E espreguiçando-se muito languidamente: - No fim de contas é oque há de melhor neste mundo; o resto é uma sensaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade?

Luísa murmurou:

- Se é! - E acrescentou logo: - Creio eu!

Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:

- Crê ela! Pobre inocentinha! Vejam o anjinho!

Foi-se encostar à janela; ficou a olhar pelos vidros o descer do crepúsculo; de repente pôs-se a dizer devagar:

- Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Cristo a privar-se, a passar uma vida decoruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar, uma soalheira e boas noites, vai-se para o alto de São João! Tó rola!

A sala agora estava um pouco escura.

- Pois não te parece? - perguntou ela.

Aquela conversa embaraçava Luísa; sentia-se corar, mas o crepúsculo, as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento de uma tentação. Declarou todavia imoral semelhante idéia.

- Imoral, por quê?

Luísa falou vagamente nos deveres, na religião. Mas os deveres irritavam Lepoldina. Se havia uma coisa que a fizesse sair de si - dizia - era ouvir falar em deveres!...

- Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido?

Calou-se, e passeando pela sala excitada:

- E em quanto à religião, histórias! A mim me dizia o Pe, Estêvão, o de luneta, que tem osdentes bonitos, que me dava todas as absolvições, se eu fosse com ele a Carriche!

- Ah, os padres... - murmurou Luísa.

- Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha rica, está longe, não seocupa do que fazem as mulheres.

Luísa achava horrível aquele modo de pensar. A felicidade, a verdadeira, segundo ela, era ser honesta...

- E a bisca em família! - resmungou Leopoldina, com ódio.

Luísa disse, animada:

- Pois olha que com as tuas paixões, umas atrás das outras...

Leopoldina estacou:

(continua...)

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